sexta-feira, 30 de agosto de 2024

crônicas

Caminho à esquerda

Cláudio Pimentel

Eu tinha 15 anos quando amanheci decidido: vou ser pianista. Não contei a ninguém. Coloquei o uniforme, tomei o café e saí como se fosse um dia qualquer. No caminho, a segunda mudança. Ao invés de virar à direita rumo à escola, virei à esquerda rumo ao conservatório, que ficava próximo. Já à porta, de um corredor longo e escuro, ouço os acordes vindo dos teclados. Sentia as batidas nas cordas no meu coração. Sempre tive curiosidade em saber qual teria sido a reação do homem ao perceber que havia sido dotado de uma consciência. Foi o que senti: ganhei uma consciência.

         Não foi a primeira vez que agi assim. Quando tinha 12 anos, fiz o mesmo. Levantei cedo da cama decidido ser jogador de futebol. Não contei a ninguém. Coloquei a melhor roupa, tomei o café e saí como se fosse um domingo qualquer. No caminho, a primeira mudança. Ao invés de virar à direita rumo à igreja, virei à esquerda rumo ao clube de futebol, que ficava distante. Já à portaria, de um corredor largo e ensolarado, ouço os quiques vindo de bolas rolando. Sentia cada chute como se fosse uma batida do coração. Não entendia porque reagia àquilo dessa forma. Só percebia que algo estava mudando em mim. E me fazia bem.

         Cresci ouvindo de minha mãe e tias que tinha mãos de pianista, às quais aplicavam beijinhos galhofeiros. E ouvindo de meu pai e tios que tinha o gingado dos grandes jogadores de futebol, pedindo dribles e chutes a cada bola que atiravam para mim. Para elas, eu seria um pianista clássico, um Mozart. Para eles, um armador clássico, um Gerson, o do Botafogo. Não virei nem uma coisa e nem outra. Vai entender. O tempo passou e nunca mais tive rompantes cercados de segredos como estes. Isto até abril de 1984, quando faço aniversário.

Às vésperas de completar 24 anos, em 10 de abril, eis que acordo decidido ser jornalista na Bahia. Contei a todos, mas antes precisava fazer um teste: cobrir, como correspondente, pela Tribuna da Bahia, o Comício das Diretas, que prometia reunir mais de um milhão de pessoas, na Candelária, no Rio, o maior da história do país. Coloquei a calça jeans mais surrada, lancei um tênis semelhante nos pés e vesti uma camiseta branca com um dragão vermelho. Uma roupa de gala em tempos de rebeldia. Tomei café reforçado e sai rumo à Central do Brasil munido de canetas e papel, minhas únicas armas. Lá, não tive dúvidas, virei à esquerda, peguei a Presidente Vargas e fui direto à Candelária, onde a multidão me esperava, num grande e esperançoso corredor humano. Sentia-me pleno.

Desde então, um mundo de conhecimentos me fez tomar o rumo à esquerda, sem pestanejar, para seguir em frente, mas nenhum deles foi tão espetacular como o que vi e vivi naquelas quase 14 horas de cobertura, escrita e envio de matéria, via fax, num posto do Correio, no Largo do Machado. A Igreja da Candelária ficou na minha memória como a catedral da consciência. E a Biblioteca Nacional, já perto da Cinelândia, também, como o berço da sabedoria. Foi sentado em suas escadarias, uma redação de improviso, que escrevi, como se tocasse piano, o artigo de quase 400 palavras, para este histórico jornal. Não havia celulares e nem notebooks. Um mês depois chegava à Tribuna, cheio de vontade.

A lembrança, porém, tem dois motivos especiais envolvendo a Tribuna. Em 2024, graças a ela, completei 40 anos de profissão. Apesar da quantidade de bicos, de matérias frees, pesquisas etc. que fiz assim que me formei em Comunicação Social, considero a chegada ao jornal como a data de início de minha carreira. Aprendi muito com os jornalistas que vi na TB. Gente talentosa, trabalhadora e gentil, que jamais se isentou de ajudar e contribuir com o meu aprendizado. Outro marco agora é que, em agosto, completo cinco anos de colunismo no jornal. Neste período, foram mais de 200 crônicas já publicadas. A Tribuna estará para sempre em meu coração.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 30.08.2024

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