Camomila Harris
Cláudio Pimentel
Enquanto o planeta cai nos encantos da sorridente Kamala Harris, virtual candidata à presidência dos Estados Unidos, encarando o mitômano Donald Trump, que, depois do atentado, quase foi eleito antes da hora, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que briga pela reeleição neste domingo (28), recomendou chá de camomila aos assustados. Não apontou alvo, mas a imprensa rapidamente o captou: Lula. É justo. O presidente tem dado muita colher de chá para que jornalões, instituições, oposições e outros espertalhões peguem no seu pé, que não é o do Daniel Day-Lewis, em “Meu pé esquerdo” (1989), mas é, à luz da irreverência, de esquerda, mesmo não sendo. Política é assim. A refrega é alimento.
Maduro é ingrato, instável e presunçoso como um presidente que nos acossou recentemente e desejava tornar-se ditador como ele. Só está à frente da Venezuela ainda porque tem petróleo aos borbotões, militares acumpliciados e Lula, que sempre queima a língua tentando impedir que, geopoliticamente, se afunde num buraco maior do que o que já está enfiado. Derramar sangue civil na América do Sul, como ameaçou, não interessa à turma sob o Equador. Nem o fanfarrão Milei apoiaria. E mesmo assim, sem provas, cutucou o “hermano” Lula. Disse que as eleições no Brasil não são auditadas. Usou uma mentira, do ex-presidente brasileiro, já condenada por insuspeitos organismos internacionais, como OEA e ONU. Repetiu o adágio de alguém que comeria seu fígado num jantar com os filhos. Um tolo.
Aliás, recomendar chá de camomila não é tão ruim. Em ruínas, desajustado e atônito, o mundo seria abençoado se chuvas diárias de camomila regassem seus campos e cidades. Não a ponto de virar fenômeno de mudanças climáticas, mas pela necessidade espiritual de lavar almas, baixar tensões e nos lembrar que ainda somos humanos e que já fomos sociáveis, agregadores e civilizados. A camomila que mude Maduro, Trump, Musk, Putin, Netanyahu, Hamas, Irã, China e congêneres que apostam na barbárie. O planeta está tão estressado que o fato de Kamala ocupar o lugar de Joe Biden na corrida à Casa Branca trouxe alívio às bolsas, às moedas, à esperança, à vida. Faltou apenas paz à Palestina e à Ucrânia. Nosso destino é harmonia, afinação e poesia.
Ao Nicolás Maduro, falta a sagacidade e a inteligência do xará Nicolau Maquiavel. Diz ele: “Todos os estados bem governados e todos os príncipes inteligentes tiveram cuidado de não reduzir a nobreza ao desespero, nem o povo ao descontentamento”. O chá de camomila recomendado por Nicolás foi conscientemente para Lula, mas inconscientemente para ele próprio. Ele não se dá conta dos seus erros e os busca em outrem. O ser humano tem o “defeito” de ralhar com terceiros sem se aperceber que é com ele mesmo que ralha. Aprendi na psicanálise. Se você conhece alguém com esse hábito, lembre-se: não é para você a dica, é para ele, que está revelando problemas que não consegue superar. O mundo está cheio. Maduro intui um futuro incerto, vencendo ou não a eleição. Por isso, se descabela.
Donald Trump jamais imaginou que duas balas de prata, uma a favor e outra contra, mudariam suas perspectivas. A primeira, em sua orelha, garantia vitória fácil; a segunda, em seu ego, mudou tudo. Kamala Harris virou os EUA. Haja camomila! Ao invés de conter o ímpeto logo após o atentado, Trump inflamou-se no primeiro discurso que fez e perdeu a chance de unir o país, propondo o fim dos extremismos. Ao invés de se colocar como estadista, condenando o atentado que sofrera como inaceitável a qualquer um, retomou o discurso de ódio.
Começou acusando os imigrantes de ladrões enviados por seus países aos EUA para roubar americanos. O discurso surpreendeu quem ainda tinha dúvidas do voto. E foi além, prometeu caçá-los como se caça animais. Não aprendeu nada com o atentado. Um horror. Abriu mão de qualquer humanidade, até consigo mesmo, para reforçar um perfil inquisitorial, justiceiro, ameaçador e vingativo, o mesmo, talvez, do pobre coitado que quase tirou sua vida. Diante do cenário entende-se o fenômeno Kamala Harris ou, se preferir, Camomila Harris.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia - 26.07.2024
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