sexta-feira, 19 de julho de 2024

crônicas

O mundo é um teatro

Cláudio Pimentel

Esta poderia ser uma história curiosa, humorada ou crítica, como, às vezes, tento entregar a você, leitor, mas desconheço o resultado que virá. Há um alvoroço pairando entre o que meus olhos veem e a realidade mostra. Um emaranhado enfadonho e irreconhecível. Li que, diante de fenômenos assim, basta começar pelo princípio, continuar até o meio e depois seguir até o fim. A fórmula é de uma incerteza atroz, mas o que fazer? Caça com gato quem está num mato sem cachorro. O mundo deixou de ser uma sequência de fatos aleatórios e passou a se roteirizar. Virou um teatro. Dei-me conta disso ao ver Donald Trump livrar-se de uma bala na cabeça, erguer o punho e, sangrando, posar para as câmeras com ar vencedor.

O resultado é uma imagem impactante. Ainda no palanque, Trump, que balbucia algo - “fight”, pareceu-me -, está cercado de seguranças e tem sobre si uma bandeira norte-americana, levitando como se fosse um escudo a protegê-lo. Ele exibe o queixo cerrado e o olhar duro, de um Leão pronto para atacar. A foto em instantes rodou o mundo. A mensagem é raivosa, de lembranças ruins: o imperador voltou. Hitler, o pai nazista, foi quem melhor vocalizou a fama de impávido. Trump fez o mesmo. Seu segundo mandato, se vier, será o início de uma nova era, sustentada pelo fanatismo religioso. Para os evangélicos norte-americanos, ele é o Messias.

O atentado a Trump e a espetacular reação de manter-se em pé e exibir força sobre humana arrepiou até quem o desprezasse. Mais uma mentira? Não. Era real. Finalmente vítima de uma circunstância. E não um homem grande e birrento a reclamar que é vítima da justiça, da imprensa, da esquerda, do mundo, das prostitutas e dos Democratas. Ao contrário, saiu soberbo do atentado, assumindo a imagem de imbatível e capaz de superar tudo. Não mais um bebê malandro e chorão fazendo biquinho e querendo colinho. Seus fanáticos seguidores ajoelharam e gritaram: “Aleluia”!

Em nada lembra outro atentado: o que matou o presidente John Kennedy, em 1963, em Dallas, Texas. As imagens do crime comoveram o mundo. Virou o assassinato do século XX. Os pedaços do seu cérebro sendo recolhidos pela mulher, Jackie Kennedy, reviram nossos estômagos até hoje. Ninguém de são juízo admitiria que o amante de Marilyn Monroe, o sorridente Kennedy, um dia seria vítima dos tiros certeiros do tresloucado Lee Oswald. Se tivesse sido apenas de raspão, Kennedy também posaria de imortal? Quem sabe? Os marketeiros não eram tão ousados.

Trump é o marketeiro. Inclusive da arma que quase o matou. É um velho defensor delas. Adquiriu a sensibilidade de auto construir-se na TV, quando comandava um programa em que demitia uns e iludia outros. Sair mais forte de um “atentado” é sua rotina. Trump é o atentado. O seu lema é “The Show must go on”! Por outro lado, o uso da mentira como marketing deveria ser questionado pelas instituições e pela população, mas não é: “The lies is the business”! Os americanos são capazes de forçar a saída de Biden da corrida eleitoral por estar supostamente gagá, por etarismo, mas ignora as toneladas de mentiras que Trump despeja.

Trump jamais abandonará os apoiadores. Para conhecê-los, basta ver na HBO, TV paga, o documentário “A insurreição mora ao lado” (2023), de Alexandra Pelosi. Traz entrevistas com pessoas que invadiram o Capitólio, em 6 de janeiro de 2021. Poucos pensam. Apesar das mortes e destruição que causaram, não reconhecem os crimes. Os ingênuos dão pena. Uma adolescente é cúmplice de homicídio por acompanhar o tio que a levou para passear em Washington. Ele é suspeito do crime. Há também o membro de uma associação que defende que o lugar da mulher é em casa, na cozinha, cuidando da família. Atarracado, com músculos até nos miolos, defende que o grupo prega o amor. Só não diz o tamanho dos pregos. Sua mulher confirma tudo, menos que apanhe dele. A filha faz caras e bocas. É tudo teatro. Mais, é spoiler.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 19.07.2024

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