A imprescindível leveza do ser
Cláudio Pimentel
A barra pesada está sobre nós, acachapante. É insidiosa, invasiva. Espectro tenso que nos ronda. A gravata vira forca, a camisa é de força e os sapatos nos força a arrastar a dor. Vai-se o ar, a alma e o passear. Somos alvos da câmera da esquina para o prazer voyeur. O embrutecimento da vida e seu baixo valor na bolsa é cultura popular. Vende margarina, fantasia e pílula para trepar. Ave audiência! É a mentira como estratégia e a esperteza como tática. As ruas nos tornam atores num clube de tiro. E espectadores se uma bala perdida não nos matar antes do Bonner cantar: palavras, apenas palavras, pequenas palavras, ao vento. À política só o interesse interessa. Perdemos o que jamais deveria ter se perdido: a leveza.
Quem nos brindou com ela foi o escritor Milan Kundera e seu clássico “A insustentável leveza do ser”, livro que nos invade em plena ditadura, a deles, na Tchecoslováquia, e a nossa, no Brasil, no início dos anos 1980. Dois lugares e dois mundos diferentes, mas a mesma violência, a mesma covardia, a mesma estupidez. Uma de esquerda, outra de direita. Em ambas a lógica do peso nazifascista que não poupa vidas, ideias, futuro. Kundera mergulha na leveza do amor, da paixão, e seu duplo sentido com o peso das relações, sentimentos e contradições. Não é essa, porém, a abordagem que quero. Há outra que me amofina. O Brasil e o mundo democrático abdicam dela e pedem opressão.
O que é a leveza? Oposição ao peso representado pela obesidade? As academias de ginástica diriam sim. As academias de ideias, porém, diriam não. Objetivamente, leveza e peso têm relação no cotidiano, assim como subjetivamente também, mas num campo que precisa ser explorado em tempos estranhos como agora. Leveza se traduz nos conceitos de gosto, belo, delicadeza, educação, elegância. Relaciona-se ao sublime das coisas. A rotina deveria ser o ambiente da arte e não a mixórdia que está aí. À cultura de massa tudo deve ser aceito. Os opostos então se desfazem. Não há mais feio e bonito. O conceito de ambos empalidece. Ou é tudo feio ou tudo bonito. Fora disso, é preconceito. E criam eco: é tudo certo ou tudo errado; é tudo verdade ou tudo mentira.
Antes mesmo da instalação de um possível estado de exceção, seus integrantes, em nome não se sabe de quem, já se perfilam pela igualdade do inigualável. E nesse tudo, cuja leveza está descartada, vai se insinuando mais uma silenciosa e perigosa noite. O grito é o primeiro sintoma de algo errado. Já percebeu que o grito tomou conta dos ambientes? Das ruas aos lugares comuns em prédios. Em bares, clubes e festinhas. É o reino do ruído nos imprensando. Tudo é dito e conversado aos gritos. Se o assunto for política, então, ganha quem berrar mais alto. Citar Paulo Freire, nem pensar. Esta é a lógica. E a leveza está banida em nome de uma supremacia, a da ignorância e da grosseria, que precisam do grito para se impor, carente que são de conteúdo.
Na TV, o grito seduz todos que assistem. Âncoras de telejornais policiais apenas gritam. Homens e mulheres, bem vestidos, gritam sobre a dor sem anestesia. Pessoas bonitas e saudáveis, vestindo marcas, mas deselegantes, brincam de poderosos. Boçais, gritam e maculam a esperança. Acusam e cobram como deuses. Têm pés de barro. Há quem aprecie. E defenda. Leveza é coisa de... O grito se repete nos programas humorísticos, nas entrevistas, nos musicais e nos debates esportivos. O grito dá vida à política extrema. O grito é arma. É doença. É epidemia. Não era assim. Grita âncora, apresentador, repórter, pastor e político. Arautos da finitude. Um dia a beleza desaparecerá e a sua última imagem será a leveza. Imprescindível ao ser. Depois será o ser. Silêncio, maestro!
Cláudio Pimentel é jornalista.
Tribuna da Bahia – 12.07.2024
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