Belas maldições
Cláudio Pimentel
O ativista e jornalista Julian Assange, criador do site WikiLeaks, é um personagem que inspira sentimentos extremos: amor e ódio, admiração e desprezo, empatia e aversão. Sua libertação de uma cadeia inglesa não foi diferente. Causou euforia em setores da imprensa mundial, particularmente o do jornalismo investigativo, e desolação nos meios políticos, diplomáticos e financeiros. Quando todos tinham como certa sua extradição aos EUA para cumprir pena de prisão, eis que ele renasce assumindo a culpa do vazamento de documentos sigilosos e, em troca, ganha o direito de viver livre em sua terra-natal, a Austrália.
Inimigo número 1 do establishment e símbolo da luta por acesso à informação, a libertação de Assange parece camuflar os motivos da decisão. A principal versão é a de que está doente em decorrência de um AVC, mas a alegre chegada a Camberra, em que saltitava e exibia o punho fechado como se comemorasse vitória, a contradiz. Erguia o braço com a energia de quem estivesse pronto para um “fight”. Outra versão, mais maliciosa, assegura que o governo americano vê a extradição como um risco, pois a prisão tem os ingredientes de um ataque à liberdade de imprensa, sagrada na terra de Tio Sam. Biden e Sunak temem que Assange contamine as eleições deste ano nos dois países.
A prisão de Assange é um desses castigos que, de tempos em tempos, os donos do poder impõem àqueles que flagram autoridades com as mãos no dinheiro da viúva ou colocando em risco a vida de milhares de pessoas. O ativista estava sendo penalizado por denunciar maus-feitos perpetrados por grandes nações. Em, 2010, publicou os Diários da Guerra no Afeganistão e os Registros da Guerra do Iraque, aquela em que os EUA sequer encontraram uma gota do gás letal que acusavam Saddam Hussein de fabricar. Um vexame.
Assange foi parar em Londres depois que a promotoria sueca o acusou de estuprar duas mulheres. Até hoje ele nega. Era uma armação. Pediu asilo na Embaixada do Equador e ficou sete anos sem pisar na rua, trabalhando. Em 2016, no auge da disputa presidencial entre Hillary Clinton e Trump, publicou e-mails do Partido Democrata que revelaram que Hillary forçou uma intervenção americana na Líbia. Uma bomba. Foi chamado de marionete da Rússia e alguns o responsabilizaram pela vitória republicana. O comportamento paranoico e agressivo levou os equatorianos a chamarem a polícia. Ficou cinco anos preso até ser solto.
Do ponto de vista pessoal, a libertação foi importante, mas, em termos gerais, é difícil avaliar até onde a confissão de culpa por divulgar documentos sigilosos pode inibir a ação de outros ativistas e jornalistas a fazerem o mesmo. Governos que se sentirem ameaçados podem aplicar a mesma estratégia usada com Assange, que viveu uma via crucis, sem cometer crime. Foi demonizado e encarnou, do castigo à esperança, os míticos Prometeu e Fênix. Nada de cinzas. Qualquer jornalista sério faria o mesmo se recebesse documentos comprometedores: denunciar.
O criador do WikiLeaks é um personagem que só sobrevive em países democráticos, mesmo que precariamente. A coragem para divulgação de centenas de milhares de arquivos confidenciais e militares dos Estados Unidos jamais aconteceria em repúblicas sul americanas ou asiáticas, que ora são democracias, ora ditaduras. Em qualquer uma delas teria virado comida de peixe. Assange fez história e inspirou jornalistas. A Vasa-Jato, de Glenn Greenwald, é um exemplo brasileiro de abuso de autoridade. Desmascarou a parcialidade da Lava Jato, chantagens, ameaças e conluios para prejudicar terceiros.
Filmes como “Rede de mentiras”, “A hora mais escura”, “Segredos oficiais”, “O Mauritano”, "Zona verde" e a série “Homeland” ilustram os terríveis anos pós 11 de setembro. Passamos a ser culpados até que se prove o contrário. A máxima inverteu-se. E WikiLeaks os inspirou. No livro “Os bastidores do WikiLeaks” – que também virou filme, “O quinto poder” -, o autor Daniel Domscheit-Berg, co-criador do site, nunca esqueceu o nome do livro que leu, numa só noite, logo depois de romper com Assange: “Belas Maldições”. Tudo que fizeram cabia no título. Tudo. Nunca mais se falaram. Que maldição.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 28.06.2024
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