sexta-feira, 21 de junho de 2024

crônicas

Gente humilde

Cláudio Pimentel

         Suspeito que o brasileiro não passa de um astronauta perdido nos buracos de queijo da Lua desejando redenção. Um episódio no Metrô, quando a composição ameaçava zarpar, na Lapa, surgiu como evidência do abandono e alienação que nossa gente vive. Do nada, um vigilante adentrou o vagão e, às pressas, acomodou um senhor cego ao meu lado. “Olha ele aí”, disse, saindo ligeiro. Era o aperitivo sentimental da hora do almoço. Consenti, cuidando que não caísse sentado no chão. Em instantes, porém, e sem cerimônia, voltou-se à plateia e resmungou: “Agora querem me convencer que o RG é colorido!” Por essa eu não esperava. Ri. Os demais também. A viagem prometia.

         Aparentava 65 anos e trazia uma bengala preta, de manopla parecendo marfim. Inquieto, procurava algo no paletó. Sabe-se lá o quê. Seria a vida? Tinha cabelos brancos, voz malandra e olhos transfigurados. Não os escondia. Era autêntico. Altivo como se visse. “Em Salvador, o tabaréu tem que ficar de olhos bem abertos”, sentenciou. Para mim, disparou: “Você soube do desaparecimento de 220 pessoas do bairro Ípsilon? Deu no jornal” – nome real suprimido. Disse que não. “Estão no abrigo onde eu estava”. Explicou que o grupo recebia aluguel social e, de repente, perderam as casas alugadas, foram removidos e deixados sob os cuidados de uma pastora. O benefício foi suspenso. “Queixei até recuperar meu cartão do INSS. Cai fora. Meu cartão, quem usa sou eu”, rosnou.

         Verdadeira ou não, é a mesma situação de milhares de brasileiros, que, como o cego do Metrô, têm vidas que ninguém vê. Segurança jurídica é o debate da hora. Agronegócio e indústria esperneiam quanto aos riscos. A imprensa encarna a lamúria. Você soube que os Defensores Públicos da Bahia estão em greve há 40 dias? Se saiu no jornal, não sei, mas os pobres são os mais prejudicados: mulheres vítimas de violência doméstica, idosos e suas aposentadorias, crianças e adolescentes em situação de risco. Os poderes se fazem de cegos e postergam uma solução. Os Defensores querem apenas que seus direitos sejam respeitados conforme a lei. Botar comida no prato do pobre é bonito, mas garantir segurança jurídica a ele é muito mais.

         O cantor, compositor, dramaturgo e escritor Chico Buarque de Holanda, que completou 80 anos, jamais esqueceu os necessitados. Só por isso já merecia um bolo do tamanho do Maracanã. É reconhecido como o maior e mais brilhante artista do país. E defende os vulneráveis por vontade ética, pelo exercício da cidadania. Jamais se exibiu como tal. Sua obra consolidou a imagem de crítico contumaz a quem negligencia os desvalidos. E, para tanto, armou-se apenas de talento, música e poesia. A história de Chico é a história da resistência à ditadura. Sua obra supera o imensurável. Gênio!

         Foi ouvindo Chico, a partir dos 12 anos, que aprendi a identificar o que é música de qualidade. Pedro, um grande amigo – até hoje - do ginásio, em São Paulo, tinha todos os discos dele. Passávamos horas ouvindo suas músicas, comentando-as e até cantando “Deus lhe pague”, “Construção” e outras. A música dele iluminou meu ser. Chico passou a ser uma referência sobre o bem e o mal. Companhia constante. Irmão mais velho. Mudei para o Rio e ele veio junto. Lembro-me de uma noite em que não encontrava inspiração para me declarar a uma garota da Faculdade até “Tatuagem” tocar no barzinho onde estávamos. Ficamos tatuados.

         Chico compôs samba, bolero, marcha, baião, valsa, rock, reggae, jazz, blues, country, fado... Um artista multiforme, cujas características, variadas e peculiares, se fizerem presentes também nas peças de teatro e livros que escreveu. É difícil medir a importância da sua obra e da sua contribuição à cultura popular do país. Nada se iguala. “Apesar de você” e “Cálice” são exemplos poderosos de combate. Casamento perfeito da beleza estética, força militante e conscientização. Tão fortes que conseguiam driblar a censura. Em suas canções, Chico sabia lidar com a alegria e a tristeza como no verso “é gente humilde; que vontade de chorar”.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 21.06.2024

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