Uma história dos Diabos
Cláudio Pimentel
Os evangélicos, pelo menos aqueles que se tratam por “vossa excelência”, trouxeram, em apenas 24 segundos, o Inferno para mais perto de nós. Dá até para sentir o bafo ao redor. O Diabo tem pressa. Eles e companheiros de transgressão, em seus terninhos de grife, na cor azul royal, aprovaram, na Câmara Federal, a tramitação em regime de urgência de projeto que equipara aborto a homicídio. Até Hitler levantou-se da cova e bateu palmas. Colocar o dedo na tomada é menos insensato. O projeto é um castigo desumano e desnecessário para quem ainda mal abandonou o rosa-bebê: meninas entre 10 e 14 anos, as maiores vítimas de estupros perpetrados por pais, padrastos e tios no aconchego do lar. Agora, se engravidarem poderão responder à justiça se optarem pelo aborto.
O projeto do deputado Sóstenes Cavalcante (PL- AL) é chocante, ultrapassado e descabido. É como resgatar e validar a Lei de Talião. Nem os dinossauros fariam isso. Foi idealizado, segundo o parlamentar, com o objetivo de saber se o presidente Lula está realmente do lado dos evangélicos. Um teste. Se vetar, quando for a sanção da presidência, é sinal de que não está. Coitado, pirou a cabecinha. Será possessão? Água ungida, ora! O episódio dá náuseas. No caso das meninas, o aborto é recomendável para salvar vidas, uma vez que a maioria não possui estrutura anatômica para uma gravidez. No que se refere a mulheres estupradas, que buscam o aborto, o projeto é, no mínimo, bizarro, pois elas poderão ser condenadas a penas superiores à de seus algozes. Um estímulo aos estupradores. Um vale-night da lei! Sandice medieval.
No primeiro semestre do ano passado, 34 mil meninas foram estupradas, número equivalente a 190 casos por dia. O número de mulheres estupradas chegou a quase 12 mil, no mesmo período, dando algo em torno de 66 casos por dia. Tudo isso sem contar as subnotificações, cujos números, que se supõem altos, são uma incógnita. Agora pare um pouco e imagine a confusão que teríamos se o projeto já estivesse em vigor. O governo estaria, por exemplo, estudando a construção de novos presídios para abrigar tantas “criminosas”. O absurdo dá até razão a uma definição cáustica feita pelo escritor e humorista norte-americano Ambrose Bierce: “O Diabo é autor de todos os nossos infortúnios e proprietário de todas as coisas boas deste mundo”. Apronta e nada lhe acontece. O Congresso está no mesmo caminho.
E o nonsense não cessa. Agora imagine o estuprador recorrendo à Justiça para impedir que a mulher que estuprou faça aborto, uma vez que ele, como pai legítimo, não autorizou e quer a guarda da criança - provavelmente para estuprá-la no futuro. E, assim, sucessivamente, a outras mulheres que também abusou. Dá para ouvir: “Estupradores, uni-vos, chegamos ao paraíso!” Que mal as mulheres fizeram aos homens? Ideias como estas são de pessoas que odiavam a mãe. Eu adoro a minha. Dedico e agradeço a ela o que sou e jamais permitiria que qualquer mal a alcançasse. Como é possível permitir a um grupo de homens, que se dizem legisladores, decidir sobre o corpo da mulher. Se homem parisse, o aborto seria corriqueiro.
Pretendia falar hoje sobre a água, mas em nome da minha mãe, mulher, irmãs, cunhadas, sobrinhas e tantas amigas, entrei no assunto, pois não me sentia confortável em deixá-lo solto, sem uma admoestação. Não podia achar normal que tratassem a mulher assim. Se o fizesse, acharia normal que amanhã negros, índios, imigrantes, homossexuais e outras minorias recebessem o mesmo tratamento. Não podia ser. A propósito, você sabe dizer porque olhar a praia é relaxante? O segredo está no efeito da água sobre a pressão arterial. Observar locais com água diminui a frequência cardíaca e aumenta a sensação de relaxamento. A mudança visual melhora o humor. É o que farei amanhã. Faça também. Façamos sempre. Será necessário. Não dê atenção a falsos profetas e suas bizarrices tensionando os ambientes. Sóstenes é teólogo. Não sei para quê. E nem quero saber. Deus nos livre deles.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 14.06.2024
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