O melhor livro da Bahia
Cláudio Pimentel
Abrir as janelas da manhã é uma revolução para os sentidos. Tonificam o corpo e a alma, que se agitam diante do carnaval de luzes, cheiros, ares, cores e sons que abraçam o ambiente. É o chilrear dos pássaros e o cocoricar de um galo topetudo, daqui das imediações, espantando o presunçoso Morfeu para outras plagas. Hora de viver. O ritual estava adormecido, no fundo de alguma gaveta da mente, mas ressurgiu por motivo inesperado: mau humor, tédio, bloqueio. Há alguns dias sofria do mal. E não havia teclado ou tela que me inspirassem. Ocorreu logo quando cuidava de algo que me causa grande prazer: tratar de curiosidades sobre literatura. Uma diversão.
Veja como são as coisas: dia desses uma escritora norte-americana viralizou nas redes sociais ao confessar que não sabia o que fazer da vida depois de conhecer Machado de Assis, o nosso Dickens. Também pudera, ele deixou, por meio de seus livros, um fiel retrato da formação do Brasil, algo da altura de um Balzac. Poucos escritores foram tão longe. Courtney Novak havia decidido ler um livro de cada país do mundo. E quando leu “Memórias Póstumas de Brás Cubas” foi arrebatada. Paixão à primeira vista. Sua surpresa ferveu as redes e o portal G1, da Globo, resolveu fazer algo semelhante por estados brasileiros, elegendo o melhor livro de cada um deles.
Qual foi o resultado na Bahia? “Capitães de Areia” (1937), de Jorge Amado. Romance de cunho social, descreve a vida de meninos abandonados, que sobrevivem de furtos na orla de Salvador. Gosto muito, é inovador, relato nu e cru de uma época, cuja realidade, quase 100 anos depois, perdura na cidade. O G1, então, identificou quatro professores e lhes atribuiu a missão de escolher seus livros favoritos por estado. Na Bahia, mencionaram também duas grandes obras de Jorge: “Gabriela, Cravo e Canela” (1958) e “Tereza Batista Cansada de Guerra” (1972). Prefiro “Viva o Povo Brasileiro” e “Sargento Getúlio”, ambos de João Ubaldo Ribeiro. Mereciam presença, mas reconheço: trabalho difícil. Sairia qual?
As escolhas não trouxeram surpresas. Mostraram apenas que os contemporâneos de Jorge Amado se fizeram presentes, o que ratifica a Era de Ouro da literatura brasileira no século passado. No Rio de Janeiro, o livro foi “Dom Casmurro” (1899), de Machado de Assis, que verte um clássico sobre temas como traição, amor e ciúmes, além de pegar no pé da sociedade brasileira no fim do século XIX: mesquinha, arrivista, preconceituosa, conservadora... Igual a hoje. Em São Paulo, foi “Macunaíma” (1928), de Mário de Andrade, sua obra prima. O herói sem caráter dispensa comentários. É o retrato de nossa sociedade, a do jeitinho... Foram recomendados ainda os livros “As Meninas” e “Ciranda de Pedra”, de Lygia Fagundes Telles.
Carlos Drummond de Andrade, com “Alguma Poesia” (1930) e Guimarães Rosa, com “Grande Sertão: Veredas” (1956), empataram em Minas. Nada mais mineiro. No Espírito Santo, deu Rubem Braga, o maior cronista do país, com “Crônicas do Espírito Santo” (1984). Teve empate também em Pernambuco: João Cabral de Melo Neto, com “Morte e Vida Severina” (1955), e Manuel Bandeira, com “Estrela da Vida Inteira” (1965). “Vampiro de Curitiba” (1965), de Dalton Trevisan, e “O Tempo e o Vento” (1949–1962), de Érico Veríssimo, são os melhores do Paraná e Rio Grande do Sul. Cora Coralina, por Goiás, Manoel de Barros, pelo Mato Grosso, Graciliano, por Alagoas, dão luz, juntos a outros, a uma lista interminável.
Um trabalho assim, a história envolvendo a escritora norte-americana e a escolha brasileira dos melhores livros são importantes para atrair novas gerações. Listas como estas jamais ficarão imunes a críticas, mas abrem cabeças, provocam a curiosidade. Lembra-me até o livro “Dicionário de Cultura Literária – 100 Citações & 100 Personagens Célebres”, de vários autores – Ed. Difel. Nele, busca-se rememorar de quem são várias frases que repetimos hoje no cotidiano sem saber seus autores ou personagens que as disseram, como Shakespeare, Goethe e Molière ou Raskolnikov, Tartufo, e Swann, em livros ou peças de teatro. E o objetivo é o mesmo: atingir novas gerações. Que assim seja. Amém!
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 31.05.2024
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