Loucos ou Liberais?
Cláudio Pimentel
Aprendi na escola que Cabral chegou ao Monte Pascoal depois de semanas preso às calmarias do Golfo da Guiné. O fenômeno mudou o planejamento original, que era percorrer o novo caminho às Índias, contornando o continente africano. O Mediterrâneo, caminho natural do comércio de especiarias, foi fechado à Europa depois da queda de Constantinopla, último refúgio que restava do Império Romano do Oriente. História incomum. Faltou ao Brasil um escriba superior a Pero Vaz de Caminha? Não sei. A verdade é que Cabral jamais teve o prestígio que navegadores como Cristóvão Colombo, Vasco da Gama e Américo Vespúcio tiveram. Seus nomes batizaram continente, país, capitais, universidades e até time de futebol. Cabral foi escanteado. Somos todos americanos.
A carta de Caminha, redigida em 1º de Maio de 1.500, ao Rei Dom Manuel, só foi conhecida no século XVIII. É considerada o primeiro documento escrito no Brasil, marco literário do país. Foi oficialmente publicada em 1.817. O que trazia? Curiosidades e rapapés. Na forma de diário, descreve as impressões do autor sobre o que viu: território, desembarque, primeira missa, nativos. Narra a reação deles às comidas, bebidas e objetos oferecidos: “não fizeram caso”. Relata a nudez das mulheres, os “pelos rapados” da cabeça e as pinturas vermelhas no corpo, incluindo as nádegas. Filho do Duque de Bragança, tesoureiro e escrivão da Casa da Moeda, a carta o imortalizou. Não era nenhum Camões. Apenas um burocrata.
Se no início do Brasil temos aventura, drama, suspense e final feliz com a epopeia do “Novo Mundo”, o mesmo não se vê até a virada do século XX. Como é possível que a “certidão” do país leve mais de 300 anos para se tornar pública!? É como se não houvesse pessoas. Se bem divulgada, uniria o país em torno de um objetivo comum, de crescimento, valorização e exposição internacional. Em 1776, os Estados Unidos declararam-se independentes da Inglaterra e, desde então, nada mais foi do jeito que era antes. Eles correram a construir um país. Aspiraram o futuro. O Brasil ainda respira o passado. Tentar algo novo deveria ser a coisa mais fácil do mundo, mas não é. O novo assusta. Ao Brasil, tudo é uma ameaça. Os erros multiplicam-se por demanda espontânea.
Ainda estamos na reconstrução. Mais uma. O país vive um regime de marés. É um sobe e desce interminável. Nadamos pelos atalhos. Afogamos pela ignorância. O século XXI é um péssimo companheiro. Deu vida a quem defende a morte. Os brasileiros tornaram-se inimigos dos brasileiros. O parlamento é incompreensível. Meu pai e meu avô tinham, nos anos 1.980, o hábito de classificar o político de agente que queria apenas se auto beneficiar. Eu contestava. Eles riam. Culpavam minha idade. Eu culpava a deles. Hoje sou eles. Temos um parlamento que só pensa nos próprios benefícios. Ao país e à população, nada. Privatizar praias? Defender pautas bombas? Chantagear? Tumultuar sessões? O que querem essas pessoas? Enganam quem? É este o papel de Vossa Excelência? Decidam: o L é de Louco ou de Liberal?
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 07.06.2024
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