sexta-feira, 7 de junho de 2024

crônicas

Loucos ou Liberais?

Cláudio Pimentel

         Toda boa história precisa de um início, um meio e um fim. É assim que escritores, cronistas e roteiristas de novelas, séries e filmes trabalham. O segredo do sucesso está na equação. Qualquer piadista de encontro familiar, capaz de fazer até o defunto rir em seu funeral, sabe disso. E a fórmula é infalível, independente da história. O talento de quem escreve ou narra faz a diferença. A história do Brasil é um exemplo. Ela já começa em 1.500 com polêmica. A sua descoberta foi acidental ou intencional? As duas versões continuam vivas e ainda provocam debates acalorados. Até a palavra “descoberto” já caiu em desuso, o que incendeia ainda mais as diferenças. A depender de quem conte, a história pode ser fantástica, mesmo que tenha sido fruto do acaso, um lance de sorte.

Aprendi na escola que Cabral chegou ao Monte Pascoal depois de semanas preso às calmarias do Golfo da Guiné. O fenômeno mudou o planejamento original, que era percorrer o novo caminho às Índias, contornando o continente africano. O Mediterrâneo, caminho natural do comércio de especiarias, foi fechado à Europa depois da queda de Constantinopla, último refúgio que restava do Império Romano do Oriente. História incomum. Faltou ao Brasil um escriba superior a Pero Vaz de Caminha? Não sei. A verdade é que Cabral jamais teve o prestígio que navegadores como Cristóvão Colombo, Vasco da Gama e Américo Vespúcio tiveram. Seus nomes batizaram continente, país, capitais, universidades e até time de futebol. Cabral foi escanteado. Somos todos americanos.

A carta de Caminha, redigida em 1º de Maio de 1.500, ao Rei Dom Manuel, só foi conhecida no século XVIII. É considerada o primeiro documento escrito no Brasil, marco literário do país. Foi oficialmente publicada em 1.817. O que trazia? Curiosidades e rapapés. Na forma de diário, descreve as impressões do autor sobre o que viu: território, desembarque, primeira missa, nativos. Narra a reação deles às comidas, bebidas e objetos oferecidos: “não fizeram caso”. Relata a nudez das mulheres, os “pelos rapados” da cabeça e as pinturas vermelhas no corpo, incluindo as nádegas. Filho do Duque de Bragança, tesoureiro e escrivão da Casa da Moeda, a carta o imortalizou. Não era nenhum Camões. Apenas um burocrata.

Se no início do Brasil temos aventura, drama, suspense e final feliz com a epopeia do “Novo Mundo”, o mesmo não se vê até a virada do século XX. Como é possível que a “certidão” do país leve mais de 300 anos para se tornar pública!? É como se não houvesse pessoas. Se bem divulgada, uniria o país em torno de um objetivo comum, de crescimento, valorização e exposição internacional. Em 1776, os Estados Unidos declararam-se independentes da Inglaterra e, desde então, nada mais foi do jeito que era antes. Eles correram a construir um país. Aspiraram o futuro. O Brasil ainda respira o passado. Tentar algo novo deveria ser a coisa mais fácil do mundo, mas não é. O novo assusta. Ao Brasil, tudo é uma ameaça. Os erros multiplicam-se por demanda espontânea.

Ainda estamos na reconstrução. Mais uma. O país vive um regime de marés. É um sobe e desce interminável. Nadamos pelos atalhos. Afogamos pela ignorância. O século XXI é um péssimo companheiro. Deu vida a quem defende a morte. Os brasileiros tornaram-se inimigos dos brasileiros. O parlamento é incompreensível. Meu pai e meu avô tinham, nos anos 1.980, o hábito de classificar o político de agente que queria apenas se auto beneficiar. Eu contestava. Eles riam. Culpavam minha idade. Eu culpava a deles. Hoje sou eles. Temos um parlamento que só pensa nos próprios benefícios. Ao país e à população, nada. Privatizar praias? Defender pautas bombas? Chantagear? Tumultuar sessões? O que querem essas pessoas? Enganam quem? É este o papel de Vossa Excelência? Decidam: o L é de Louco ou de Liberal?

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 07.06.2024

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