sexta-feira, 24 de maio de 2024

crônicas

Seja como flor

Cláudio Pimentel

         O momento mais aborrecido de uma vida, pelo menos na minha, é o entardecer, quando claro e escuro se fundem e, à revelia, faço um balanço do dia. Sempre sinto que algo se apagou em mim. Não como o Sol, que se apaga saindo de um lado para acender em outro, mas, sim, como Prometeu, cujo castigo é ter todos os dias o fígado dilacerado por uma águia e regenerado em seguida. É tão “down”. Melhor seria fugir do balanço das horas, mas o tempo não para. Crônicas, ensinam os mestres, devem partir da trivialidade e se equilibrar no fino fio do humor, ceticismo e ironia. E, com golpes de sabedoria, expor o ridículo das coisas, retificando sentidos cansados. Afinal, tudo é “hashtag, partiu escola”. Tão fofo, não é?

         Sentir-se “down” é um sintoma do século XXI. Resultado de quase 25 anos de desatino nas mídias. Se eu fosse o filósofo Epicuro (341 a.C.) recomendaria a todos que cessassem os passeios às redes (antis) sociais, selecionassem a leitura de jornais e revistas e moderassem os telejornais, particularmente os locais que se tornaram hematófagos: querem sangue. São ameaças à saúde pública mental. A atitude crítica ao papel da imprensa e congêneres amadores digitais é vacina, mas ignoram. Fofocas, variedades e balas perdidas transformaram-se em fontes de prazer. Discípulo de si mesmo, Epicuro escreveu dezenas de livros, pregando que “o prazer é o princípio e o fim da vida feliz”, presentes na ética, na música, na natureza, na filosofia, no viver e no amor.

         Se há alguma dúvida na receita, trago o exemplo de outro filósofo da antiguidade: o romano Sêneca (2 – 65 a.C.). Entretanto, antes que me esqueça, reafirmo que as dicas têm um alvo claro: eu e meu eterno entardecer. Compartilho com você, leitor, porque és a única razão de eu estar aqui escrevendo, me expondo e reconhecendo que o número de pessoas declarando suas dores é grande e difícil de quantificar. Antes procurava-se padres, psicólogos, médicos e até quem prometesse trazer o ser amado em três dias. Nada, porém, volta mais a ser como era. A dor, o vazio, a ansiedade não dão tréguas. É como roupa que gruda na pele. Como todos querem se livrar delas, vamos em frente.

         Contemporâneo de Jesus Cristo, Sêneca dizia que “parte da cura está na vontade de ficar curado”, revelando que já naquela época se sabia do valor da vontade humana. O filósofo era considerado a figura mais expressiva do estoicismo, escola grega que privilegiava a moral, baseada numa concepção psicofisiológica do homem e da natureza, da noção de corpo indissociável da noção de esforço. Tutor de Nero, acabou em desgraça ao se envolver com a política romana. Foi condenado à morte pelo próprio pupilo, já Imperador, que lhe ofereceu a opção de se suicidar cortando os pulsos. Nero já estava em estágio avançado de loucura, acreditando que todos queriam traí-lo, inclusive a mãe, Agripina, a qual mandou matar também.

         A política é talvez hoje a maior fonte de frustrações na sociedade. A que mais colabora para as enfermidades, criadora de diversos momentos down. Não há explicações que nos traga conforto, apenas toneladas de artigos, teses e compêndios tratando o tema. O cotidiano teima em nos confundir. A realidade política se mostra alheia ao que deve ser. Exemplos intempestivos da semana, mostrando a extrema direita plena em seu elemento:

- Trump, candidato à presidência dos EUA, se coloca como líder do próximo Reich unificado, se eleito – novo Hitler;

- O primeiro-ministro Rishi Sunak, do Reino Unido, dissolve o parlamento e convoca eleições antecipadas porque seu governo vai bem e tudo vai piorar – novo sabido;

- A fúria de Netanyahu, de Israel, com a decisão do Tribunal Penal Internacional em emitir mandado de prisão internacional contra ele e chefes do Hamas por crimes de guerra – novo inocente.

Pobres senhores, são vítimas da insanidade, da megalomania e da cara de pau. Por isso, merecem singelos pedidos de desculpas e flores, belas flores, muitas flores... até a de Hiroshima. Seja como flor.

Claudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 24.05.2024

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