sexta-feira, 17 de maio de 2024

crônicas

Demonização do meio ambiente

Cláudio Pimentel

         O Rio Grande do Sul é a primeira grande vítima da demonização do meio ambiente, iniciada em 2018, quando um governo de extrema direita tomou posse prometendo reinventar a roda com intenções malignas. O resultado está aí: a catástrofe gaúcha cercada de dor, prejuízos e mortes. Nunca se viu tantas imagens chocantes de frustração, desespero e desalento. O Brasil parou de contar as horas para medir os metros do dilúvio que alaga as ruas de dezenas de cidades. Os “náufragos” acompanhavam o movimento sentindo suas vidas serem arrancadas aos pedaços, litro a litro: um ente querido, um carro, um animal, uma geladeira, a casa toda. Cabe punição aos culpados? Não. Apenas desprezo. Item disponível à única punição possível: a moral. Pois a divina é fantasiosa. E a dos homens... bem...

         O responsável pela área ambiental do antigo governo federal ficou conhecido como “ministro passando a boiada”, outorgado quando, em 2020, numa reunião ministerial marcada por palavrões, ensinava como fazer trapaças com as leis ambientais: "Precisa ter um esforço nosso aqui, enquanto estamos neste momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só se fala de Covid, e ir passando a boiada, e mudando todo o regramento ambiental e simplificando normas". Apesar do desaforo para com a natureza e do desprezo à vida, a afronta pouco abalou congressistas e autoridades que apoiaram a eleição direitista. Ao longo de quatro anos, a fiscalização ambiental caiu em desgraça. A ordem era agradar o presidente e sua pauta liberal.

         Logo, em seguida, o que fora estudado, no século XX, como ideal à proteção ambiental perdeu valor para os novos dirigentes: impactava o crescimento econômico, freava o desenvolvimento e impedia a abertura de novas frentes no agronegócio, na pecuária e na mineração. A reação quebrava a convicção que havia, à época, de que as preocupações ambientais tinham adquirido grande importância. Máximas como os problemas globais danificam a biosfera e a vida humana foram rechaçadas. Diagnósticos de que só seria possível estabilizar a população se a pobreza fosse reduzida viraram bizarrices comunistas. E a percepção de que a extinção de espécies animais e vegetais continuaria enquanto os países pobres se mantivessem endividados, não passava de balela de ONGs comprometidas com o socialismo. A extrema direita impôs o debate do tema com Fake News e venceu. Ambientalismo virou antipatriotismo.

A questão moral se enfraqueceu. Defender tais teses era coisa de “ecochatos”. O tema foi esvaziado, perdera o élan. Estados e municípios endividados, então, deram início à receita de como promover uma tragédia: enxugando os gastos com proteção ambiental. O caminho estava livre pois não haveria mais protestos e nem mais unanimidade na sua defesa. Copiaram o governo federal e sua alergia à ciência. Os cortes atingiram áreas presumivelmente pouco visíveis como contenção de encostas, drenagem e limpeza de córregos, desassoreamento de rios e lagoas, limpeza das malhas pluviais, retirada de construções nas margens de rios, esvaziamento das secretarias de meio ambiente, afrouxamento na legislação ambiental, negligência na fiscalização contra desmatamento e burocratização da defesa civil.

Foi o que aconteceu ao Rio Grande do Sul? É difícil dizer. Só o tempo dirá. Análises vão apontar as reais razões do armagedon. Por hora, é honesto reconhecer que o fenômeno foi devastador. Não havia trincheiras para enfrentá-lo. As mudanças climáticas são uma realidade. E não adianta a extrema direita mundial negá-las. Os gaúchos não mereciam ser surpreendidos por algo semelhante. Afinal, foram eles que, nos anos 1970, trouxeram à luz o debate sobre preservação ambiental de forma inédita, vigorosa e científica. Agora, porém, é preciso mais. O altruísmo é que deve marcar os entendimentos para reconstruir o estado. Não é hora de mesquinharias e disputas para beneficiar A ou B nas eleições deste ano. Todos os louros da recuperação devem ser atribuídos à população que não se escondeu e, bravamente, mantém-se em pé, juntando os cacos e tendo o olhar altivo, na direção de um futuro feliz. E que ninguém atrapalhe. Que caia um raio na cabeça de quem pense diferente.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 17.05.2024

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