Anatomia de um tombo
Cláudio Pimentel
Trocadilhos, máximas, paródias, charges e caricaturas são pílulas instantâneas de humor. É bater o olhar e rir. Acompanham a história do homem. Há quem as condene e até despreze, mas o que fazer? Nem tudo é perfeito. Porém, são heranças de nossos parentes das cavernas, que faziam desenhos e hieróglifos nas pedras, ávidos em se comunicar com o futuro. Vestígios de um passado em que o grande acontecimento era o desabrochar da consciência. Era o milagre quando milagres ainda não ocorriam. Era um pegar no tombo cósmico, como ocorre nas manhãs em que despertamos sorumbáticos, regressando de mundos irreais. Um reflexo atávico que viajou no tempo em nossa nave DNA.
Pena que a vida não seja feita de humor. Seria tão melhor! Seria? Afinal, para que servem, então, as lágrimas? O choro purifica. Expõe o humano em nós. Nos salva da finitude estéril do nada. O título dessa crônica é uma paródia, momento intuitivo do autor diante da complexidade que se tornaram as relações humanas desde os indeléveis desenhos concebidos nas pedras. “Anatomia de uma queda”, da diretora Justine Tries, filme vencedor da Palma de Ouro, em Cannes 2023, em cartaz na Prime Vídeo, expõe essa complexidade exibindo a fratura exposta deixada em nossa alma pelos mórbidos tempos atuais. Em duas horas, a ferida na tela permanece aberta em busca da cura, cujo antídoto está em mim, em você, em todos nós, mas não sabemos onde. Na emoção, na razão ou na adivinhação?
Há uma tese que diz que os dinossauros se extinguiram quando chegaram à perfeição com a presença do temível T. Rex, contra o qual não havia predadores. Maior carnívoro de sua época, tornou-se o principal predador do mundo. Fisicamente, nada leva o simpático casal de “Anatomia de uma queda” ao T. Rex, a não ser a independência que conquistaram. Eles moram na Suíça, num dos lugares mais altos do planeta, ou, se preferirem, perto de Deus. Bonitos, ricos e inteligentes, o casal perfeito. Um T. Rex moderno no topo da cadeia social. Ele professor universitário, ela escritora de sucesso. Porém, guardavam segredos. Um filho cego, vítima da desatenção de um deles, e ambições frustradas.
Se, de um lado, o T. Rex era o predador de seu mundo, por outro, o casal tinha contra si um predador muito mais poderoso e que eles, até a morte súbita e suspeita do marido, desconheciam: o mundo. Ele e suas relações de poder, interesses econômicos, jogos sociais, manipulação de mídias e submissão à Justiça, ávida também em ser reconhecida como imparcial e competente em apontar culpados e puni-los. E puni-los por quê? Por ousarem a quebrar um padrão, por se afastarem do rebanho, por ter uma mulher bem sucedida em toda a trama. Sim, o filme esbarra na misoginia estrutural de nossas sociedades, seja aqui ou nos Alpes. As mulheres são alvos preferenciais na cartilha de culpados sem razão.
O horizonte branco da neve e sua mansidão grandiosa e pureza intacta criam um cenário de fadas; e a tecla do piano a cada cena, ora triste, ora evocativa, enseja sentimentos contraditórios em que o bem e o mal, mais uma vez, se enfrentam: de que lado estão? Nenhum. Apenas maquiam a monstruosidade do mundo, que, predador, nunca foi tão ambíguo, tão distante, tão voraz. No filme, há duas histórias: a de alguém que abandona tudo com que se envolve até abandonar a si mesmo; e a de quem vai em frente sem deixar ninguém para trás, até mesmo aqueles que insistem em não seguir.
É na expressão madura de uma “DR” do tipo tudo ou nada, sacada das profundezas do roteiro, que se descortina a história. “DRs” existem? Não sei. A maturidade é algo que foge à minha juventude, que já beira os 65 anos. “Anatomia de uma queda” não é a de um tombo sofrido por uma pessoa, que, aliás, ocorreu espetacularmente. Mas a queda de uma história de vida, a do casal, seus sonhos, desejos, promessas e conquistas. A história de qualquer casal num mundo sem parâmetros e sem piedade, onde a gente nunca sabe o que é realidade ou ficção. Nem quando é trocadilho ou paródia.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 10.05.2024
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