sexta-feira, 8 de setembro de 2023

crônicas

Fuga para lugar nenhum

Cláudio Pimentel

         Até o mundo mineral reconhece que, entre as artes, o cinema é a que está mais próxima do sonho. Também pudera, o processo filme/sonho é idêntico e, quando ocorre, deixa pelo menos uma imagem registrada na mente. Um convite à fantasia. Quem nunca desejou ser transportado para dentro de um filme? Para mim, “Pleasantville – A vida em preto e branco” (1998) é um exemplo desse desejo. Há outros, mas... ele me pegou em cheio. Gostaria de vivenciar ou de ter sido o motor da transformação social, cultural e emocional que a comunidade viveu: a de uma cidade em preto e branco, que desconhecia a cor, a rebeldia, o amor, e foi, a cada descoberta, se colorindo contra a vontade de conservadores, autoridades e instituições.

         Dois filmes, “Belfast”, de Kenneth Branahg, e “Os Fabelmans”, de Steven Spielberg, ambos de 2022, causaram-me o mesmo desejo. Não apenas pela magia que acompanha todo bom filme, mas por um detalhe especial: eram baseados nas memórias de duas crianças, Branagh e Spielberg. O olhar infantil sempre serviu e sempre servirá de matéria-prima para a arte, num processo complexo que ora revela lirismo, ora terror, ora nostalgia. Se, em “Belfast”, o olhar da criança debruçava-se sobre a intolerância religiosa entre católicos e protestantes, em “Os Fabelmans” o pequeno herói buscava, numa câmera, respostas à intolerância racial em meio à complexidade da comunidade judaica, dos laços familiares e dos riscos de estar fora dela. Os dois meninos temiam a dissolução violenta de suas famílias.

         Branahg e Spielberg não são os primeiros diretores a pinçar momentos da infância para reescreverem trechos da história. Outros diretores também beberam dessa fonte e fizeram trabalhos belíssimos. “Amarcord” (1973), de Federico Fellini, e “Os Incompreendidos” (1959), de François Truffaut, são exemplos clássicos. Fellini já era reconhecido como grande cineasta e Truffaut fazia seu primeiro filme. Em ambos, os meninos miram também a família, mas noutro plano. No primeiro, é ela que o protege – com exagero até - do caos fascista pré Segunda Guerra. No segundo, é ela quem deixa o filho às vicissitudes da rua, do destino, do mal. Se num filme, há leveza e humor, sutil e escrachado. Noutro, há ausência, sofrimento e riscos. Na vida real, o menino Truffaut quase entra para a vida de crime. Tal saga, ele repete em outros três filmes.

         São duas gerações com o mesmo olhar para diferentes épocas e cujos resultados se confundem. O meu olhar se encaixa na geração de Branahg e Spielberg. Temos idades próximas, mas vi muito do que sugerem. Jamais esquecerei dois: ao nos levar para visitar nos anos 1960, em São Paulo, à “Expoex”, meu pai estava feliz e não percebeu o clima de máxima segurança e tensão no Ibirapuera. Havia tanques, brucutus, canhões e caminhões expostos, mas taticamente posicionados, acompanhados de pessoas fardadas e armadas prontas para emboscadas; ainda nos 60, porém, fiquei impressionado com a quantidade de ônibus parados na rua em que morávamos. O enxame surgiu de repente. Era um protesto de motoristas. Até hoje sinto o cheiro de diesel, o ronco de motores, o som das sirenes e o barulho dos veículos saindo com rapidez.

         As novas gerações de cineastas já exploram o filão autobiográfico. Greta Gerwig, diretora de “Lady Bird” (2017), e Damien Chazelle, diretor de “La La Land” (2016), mostram um olhar infantil mais sofisticado, diferente das gerações anteriores. As ameaças não estão mais no Estado e nem os riscos são à família. Estão nas corporações e ameaçam apenas eles, que procuram nelas se estabelecer e obter sucesso, o maior possível. A família tem peso, mas ela mudou. As dissoluções tornaram-se comuns e se dão por incompatibilidades, fora do controle dos filhos. É a caminhada do tempo cheia de lições. E o cinema é uma ferramenta lúdica para sua compreensão. Afinal, todo filme é feito para uma única pessoa: você. É criado para conversar com você. Esteja preparado. Senão será fuga para lugar nenhum.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 08.09.2023

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