sexta-feira, 15 de setembro de 2023

crônicas

Cavando vidas

Cláudio Pimentel

         Minhas mãos e olhos foram premiados há alguns dias com um livro que deveria ser lido por todos, tanto aqueles que pretendem um dia se tornar biógrafos, quanto aos que não alimentam tamanha pretensão. Será divertido em qualquer situação. “A vida por escrito” (2022), do jornalista Ruy Castro, autor de “O anjo pornográfico” (1992), sobre Nelson Rodrigues; “Estrela solitária” (1995), sobre Garrincha; e “Carmen: uma biografia” (2005), a Miranda, revela os segredos de como escrever uma biografia. A leitura deixa até a sensação de que é fácil contar a vida de alguém, o que não é. Mas pode ser importante: a biografia de Nelson salvou a vida de uma famosa vítima de sequestro, nos anos 1990. Castro não revelou o nome.

         O livro é resultado de mais de trinta cursos de biografia ministrados por ele, no período de 1997 a 2022, em São Paulo e Rio de Janeiro. Mais de mil pessoas participaram, todos ávidos em escrever uma biografia. O que é bom, pois não faltam brasileiros importantes à espera de uma. Apesar da vocação didática, o livro é uma biografia da Biografia, o que o torna mais leve e atraente. Por meio dele, ficamos sabendo que os primeiros desenhos rupestres eram biografias. Os primeiros biógrafos importantes foram, na Antiguidade, Plutarco (grego), com “Vidas paralelas”, e Suetônio (romano), em “Vidas dos doze Césares”. Foi na Idade Média, porém, que ela mostrou todo o seu potencial na autobiografia de Santo Agostinho, “As confissões”, a primeira do gênero.

         Aprende-se no livro que a biografia é a descrição do outro, algo possível graças a ação de entrar no cotidiano do personagem e, a partir daí, expor sua intimidade. É, em suma, o relato da vida de alguém, baseado na verdade dos fatos, na investigação minuciosa e na busca da informação junto a fontes fidedignas, envolvendo pesquisas, entrevistas e documentos. E tudo com imparcialidade. Para o leigo, porém, tudo é biografia. Mas não é assim. Livros de autobiografia, memórias, perfis, livro-reportagem, ensaio biográfico, “New Journalism”, praticado por escritores norte-americanos como Norman Mailer, Tom Wolfe e Gay Talese, e a biografia romanceada, são formas de narrar alguém, mas não são precisas como a biografia profissional, o que o curso e o livro de Castro ensinam.

         A biografia romanceada, por sua vez, é um sucesso há séculos e, praticamente, o caminho inicial da maioria dos leitores que gostam de biografias. Eu as adoro, e cheguei a elas graças a vários livros “romanceados”. O primeiro deles foi “Um gosto e seis vinténs”, do dramaturgo e escritor britânico Somerset Maugham. O livro conta a história do pintor francês Paul Gauguin, que abandonou a mulher e o Direito para pintar as paisagens e o povo do Taiti, usufruindo de uma luz sem igual. O ator Vincent Cassel o interpreta em “Gauguin – Viagem ao Taiti” (2017), que costuma passar na TV paga. Imperdíveis, livro e filme.

         Outro livro romanceado que me marcou foi “Linconl”, de Gore Vidal. São mais de 800 páginas mostrando um político que soube ler o tempo e que liderou duas guerras: a de secessão, contra o Sul agrícola e atrasado, e a dos bastidores da política, em Washington, onde os Democratas, segregacionistas e em maioria no Congresso, mandavam. Venceu ambas. Passei a admirá-lo e fui atrás de biografias precisas, que mostram um político astuto, melancólico e de excelente humor. Steven Spielberg captou essa aura no filme “Lincoln” (2013). Imperdíveis também.

Ruy Castro e o jornalista Fernando Moraes detêm duas das melhores biografias brasileiras que já li: “Anjo pornográfico” e “Chatô – Rei do Brasil”. São leituras indispensáveis, onde se aprende muito sobre o Brasil. Os dois produziram muitas coisas boas nos últimos anos e ainda podem produzir mais. Moraes nos deve uma das biografias mais esperadas, a do ex-governador baiano Antônio Carlos Magalhães. E Castro, que menciona em “A vida por escrito”, que o bom biógrafo merece uma biografia ou uma autobiografia, bem poderia escrever sobre si, mas declinou: “Nunca. Não confio em mim”. Alguém se habilita?

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 15.09.2023

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