sexta-feira, 1 de setembro de 2023

crônicas

A violência é fascista

Cláudio Pimentel

         O comportamento violento das torcidas organizadas é sintoma de algo ruim. Bem maior do que apenas a frustração de beberrões mimados com as derrotas de seus clubes. Não é de hoje que nossos bairros viraram campos de batalha entre policiais e bandidos. Depois da Ucrânia, por exemplo, a guerra mais acirrada do momento está no Guarujá, ocupada pela polícia paulista. Um transtorno para moradores. E, como se não bastasse, temos agora que conviver com o inaceitável rastro de mortos e feridos causado por “torcedores” que não conseguem se expressar com palavras, mas apenas com a força, em nome de uma “paixão”: o futebol. Querem, na verdade, estabelecer um padrão de vida: vencer a qualquer custo; e eliminar quem não pensa como eles. O fascismo move-se assim.

         A Itália não nos deu apenas maravilhas como o Renascimento, a “Commedia dell’arte” e a pizza, mas terríveis também como a máfia e o fascismo, ideologia que prega a negação a tudo. Não se sabe como e quando o “ovo da serpente” chocou, mas chegou ao auge nas décadas de 1920/30, destruindo o tecido social italiano e europeu ao unir-se ao nazismo alemão. Banido após a segunda Guerra, esta verdadeira praga política tem assombrado nações como os Estados Unidos, Brasil, Grã Bretanha, Espanha e Itália, que elegeu, recentemente, a primeira-ministra Giorgia Meloni, herdeira do ultradireitista Silvio Berlusconi e fã de Benito Mussolini. Que ameaça! Noberto Bobbio, historiador italiano que se encaixa no item “maravilhas”, diz: “O fascismo é o protótipo da antidemocracia”.

         A ideologia do fascismo se caracteriza em ser contra alguma coisa. Tanto que é dono de uma lista de expressões arrebatadoras como “destruição da razão”, “antiideológico”, “antiparlamentar”, “antipartido”, “anticivilização”, “antipolítica” “antiliberal”... como observou o filósofo húngaro György Lukács, em “A Destruição da Razão” (1954). A avalanche de frases de ordem tem foco: a destruição da democracia. Para Bobbio, as expressões ou termos “designam a visão e a estratégia de partidos e movimentos que visam agregar consenso em torno de fórmulas demagógicas neopopulistas e criar episódios políticos farsescos. Tudo baseado na idiotização midiática dos cidadãos e na ação sem pensar”. Quaisquer semelhanças com a atuação de políticos e do atual parlamento brasileiro é, como se diz em Hollywood, mera coincidência.

         Os torcedores brasileiros, seguramente, não têm noção de como definir a violência que promovem. Se é fascista ou não, o que importa é vencer. E, se a vitória não vem, o certo é transferir a dor da frustração para os outros. O futebol é tudo para eles, que pouco ou nada tem em suas vidas. Torcer é a única forma de catarse que conhecem. E pela qual defenderão sempre. Sem pensar nas consequências. Guardada as proporções, o fascismo toma força, na Itália, no período posterior à primeira Guerra, quando as dificuldades trazidas pelo fim dos embates - desemprego, falta de moradias, escassez de alimentos -, promovem a violência até a perda do controle. A ausência de soluções rápidas e os enormes sacrifícios impostos à população levaram a violência a um ponto que, em vez de curar o doente, matou-o de vez. Os torcedores podem nos levar a algo parecido? Não. Mas o ovo está aí.

         O cenário é ruim. E medidas precisam ser tomadas antes de se perder o controle e inviabilizar o negócio futebol. Veja: torcedores flamenguistas dirigiram-se à festa de aniversário do jogador Gabigol, para impedir que a festa continuasse; torcedores do Fluminense jogaram uma pedra no ônibus do Botafogo e quase feriram um jogador; e um caso semelhante aconteceu com o ônibus do Bahia e quase invalida o goleiro para a prática do esporte. Os vândalos ainda estão impunes? Algo acontece toda semana. A presença de torcedores no estádio do Vasco da Gama foi proibida pela Justiça. Motivo: o campo encontra-se numa região de traficantes, com muitas pessoas bebendo nas ruas em dia de jogos. E daí? Até onde sei, os estádios no país vivem a mesma situação. O tráfico está em todas as imediações. A decisão foi preconceituosa, “antifutebol”, “antijogo”, “antitorcedor”, “anticidadania”, “antipaz”, anticapitalista... É hora de jogar água na fogueira e não gasolina.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 01.09.2023

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