A casa dos espíritos
Cláudio Pimentel
“Penso que em toda biblioteca há espíritos. Esses são os espíritos dos mortos que só despertam quando o leitor os busca”, suspeitava o escritor e poeta argentino Jorge Luís Borges (1899 – 1986), que, se um dia tivesse de indicar o evento principal de sua vida, diria que é a biblioteca de seu pai, da qual, aliás, acreditava jamais ter saído. Sempre que me lembro de Nelson Rodrigues (1912 – 1980), como nesta semana, vislumbro a feição caturra de Borges. Para mim, irmãos gêmeos. Um exagero, não é? E temo que por motivos erráticos. Desde a juventude coloco os dois como faces da mesma moeda: ranzinzas, reacionários e gênios. E por quê? Sabe-se lá!
Nos anos 1970, tendo o Brasil e a Argentina operando sob instrumentos de exceção, presos que estavam a ditaduras militares, volta e meia surgia nos jornais alusões de que um e outro se colocaram a favor dos ditadores. Coisas da Candinha! Não era. O Nelson, eu ainda via na TV dizendo coisas desse tipo, mas do Borges só lia em artigos, como os que tinham no Pasquim e outros veículos da imprensa nanica. Isso me consumia: por que usar o talento e a sabedoria para estimular ou defender o mal? É o tal negócio: diga o que lês, e eu te direis quem és! Encontrava-me descontextualizado. Eles eram apenas anticomunistas.
Em “Ensaio Autobiográfico” (2009), Borges, que estava encantado com a casa do escritor espanhol Rafael Cansinos-Asséns, seu mestre, por ser toda ela uma biblioteca, se considerava anarquista na juventude, um livre pensador e pacifista. Chegou a publicar, nos anos 1920, um livro, “Los ritmos rojos” – Os ritmos vermelhos – com uma coleção de poemas em verso livre – uns 20 - que elogiavam a Revolução russa, a fraternidade do homem e o pacifismo. Três deles foram publicados nas revistas “Épica Bolchevique”, “Trincheira” e “Rusia”, na Espanha. Às vésperas de voltar a Argentina, destruiu o livro. Antiperonista, ficou ao lado de Israel contra os árabes.
Já o Nelson se viu diante de um fato que envolvia seu filho Nelsinho, preso há sete anos pela ditadura militar. Foi em 25 de maio de 1979, numa entrevista ao Jornal Nacional: “Qual é a sua relação com seu filho hoje?” Resposta: “Muita gente pensa e deseja que meu filho esteja brigado comigo. Nunca nós nos amamos tanto como agora”. (...); “Como você se sentiu, como pai, ao saber que seu filho tinha sido torturado? Resposta: “Foi um choque tremendo”; “Você se sentiu impotente? Resposta: “Claro. O que é que eu podia fazer? Você queria que eu brigasse com o tanque? Saísse no braço com o tanque? Eu era o sujeito mais impotente. Eu era um beija-flor”.
Nelson e Borges sempre se declararam democratas. E não é para menos, o que a União Soviética havia feito, sob Stalin, não se recomenda a ninguém. Um mês depois da entrevista ao JN, Nelson mandou um recado aberto ao presidente brasileiro pelos jornais, que terminava assim: “Por favor, Figueiredo, solte meu filho”. No filme “Missing” (1982), de Costa-Grava, um empresário norte-americano faz a mesma coisa ao procurar seu filho desaparecido durante o golpe de Pinochet no Chile (1973). Ele se negava a acreditar que os EUA teriam sido capazes de tanto. Os EUA foram além. Estavam no golpe do Brasil também.
O encantamento de Borges ao ver a casa de seu mestre Asséns, em Madrid, foi a mesma que tive quando, em 2005, fui à casa do presidente da Academia Alagoana de Letras, professor Ib Gatto Falcão (1914 – 2008), tratar de trabalho. O casarão, no tradicional bairro do Farol, em Maceió, era composto apenas de estantes. E era maior que muitas bibliotecas que já havia entrado. No meio de tudo, Dr. Ib, como o chamava, acomodava seus quase dois metros atrás de uma mesa apinhada de livros e papéis. Sem se abalar, gentil, como sempre, e pendurado num telefone, como sempre também, sorriu maroto, apontou para as estantes e disse: “Pimentel, vá acordar alguns espíritos, que já vou.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 22.09.2023
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