Os seres urbanos
Cláudio Pimentel
Há quase dois séculos, o ser urbano é um espécime em formação. E em mutação também. Uma singularidade como o próprio ser humano o é há milênios. Mal se veem, mas convivem-se aos montes, empilhados nas grandes cidades. Ainda não temem a extinção, mas por onde passam relegam outros espécimes a essa condição. O ser urbano é assim, como gafanhotos e cupins - sem remorsos. Não têm uma vida, mas várias. Prezam a utopia, mas cada uma ao modo de cada um. Diariamente, como rotina, vivem em dois mundos: a Casa e a Rua. “Onde estão, teoricamente, o trabalho, o movimento, a surpresa e a tentação”, ilustra o antropólogo Roberto DaMatta, em “O que faz o brasil, Brasil?”, editora Rocco (1984).
Não há um dia em que eu não leia pessoas ou ouça amigos desejando sair da cidade rumo ao frescor das montanhas quase pregadas no céu ou ao calor das praias como se estivessem no horizonte. Bem longe. Algo que tem me seduzido, me feito pensar e, porque não assumir, desejar. Aos 63 anos já residi em quatro capitais: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Maceió. Todas no auge do crescimento populacional, da expansão econômica, da consolidação do comércio, do boom imobiliário e, por incrível que pareça, da elevação da pobreza, pendurada em morros, socada em conjuntos habitacionais, espalhada por ruas, praças e viadutos. Resultado frustrante.
Os benefícios do crescimento das grandes cidades presenteiam uma pequena parcela da população, a mais rica. A maior parte está relegada ao desastroso efeito colateral que o crescimento trouxe. O principal é a violência, resultado direto da pobreza e da fome. O outro é a mobilidade das pessoas e a crônica ineficiência dos transportes. De um lado, ruas entupidas de carros nos horários de rush; de outro, pontos apinhados de pessoas aguardando coletivos que se demoram. É tão decepcionante que os pontos de ônibus deveriam virar pontos de exclamação, pois não há quem não fique boquiaberto com a imagem.
Retomando DaMatta, o “mundo da rua”, onde estão a violência e o transporte, é o lugar do movimento que contrasta com a calma e a tranquilidade do “mundo da casa”. Nela somos membros de uma família, que comunga do mesmo sangue e de objetos, relações e valores, símbolos coletivos que nos distingue e nos dão um estilo de ser e estar. Nós cuidamos do espaço, estabelecendo o que pode e o que não pode. Cada um entende e executa seu papel. No “mundo da rua”, quem define é a autoridade. É ela quem deve resolver o problema do transporte e da violência. Assim como, no ambiente do lar, nos protegemos, a autoridade deve fazer o mesmo, em relação a nós, no ambiente da rua. É na rua que está o perigo. E nada é pior. Só um “vai com Deus” não nos acalma.
A violência tornou-se o problema do país. As prisões estão cheias e as estatísticas, apesar de altas, estão sempre em declínio para surpresa de todos. Na prática, porém, prender mais e melhorar índices não mudam nada. A violência continua. Tem que cortar o mal na raiz. Conheci a genealogia da formação do criminoso. Primeiro, ninguém nasce bandido, assim como ninguém nasce médico. O ambiente cria as condições para um e outro. A miséria, nos grandes centros, é o vestibular do crime.
Tudo começa como “avião” ou “fogueteiro” da “boca-de-fumo”. Se for bem, passa a fazer assaltos a transeuntes, casas, lojas, carros e ônibus ou, então, vira soldado da “boca”. O próximo estágio é traficar. À medida que obtenha “sucesso” sobe um degrau na carreira: gerente da “boca”, matador, sequestrador, assaltante de banco ou de carro forte, o auge da carreira. Ou, então, carreira solo. O “mundo da rua” nos define. Cria uma espécie de perspectiva que pode ser lido e interpretado. Onde, ao contrário do “mundo da casa”, predominam a desconfiança e a insegurança, sensações cuja tendência é lapidar revoltados ou revolucionários. Pobres seres urbanos.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia - 25.08.2023
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