sexta-feira, 18 de agosto de 2023

crônicas

Negócio das Arábias

Cláudio Pimentel

         Há alguns povoados e vilarejos do Brasil que não têm igreja, mas não existe nenhum sem campo de futebol. A constatação, curiosa como descobrir que o imperador Júlio César batia um bolão, está no livro “Futebol ao Sol e à Sombra” (2005), de Eduardo Galeano (1940 – 2015), um craque da literatura que não esconde o fascínio que o mais popular esporte do mundo lhe causou. Mais que uma ode ao futebol arte, porém, é um alerta aos riscos que corre. A maciça profissionalização e a severa disciplina militar impõem, em nome do “tecno-espetáculo”, um futebol de velocidade e força, chutando para o mato a alegria, a fantasia e a ousadia, que um dia nos brindaram Leônidas, Heleno, Zizinho, Di Stéfano, Garrincha, Pelé, Beckenbauer, Zico, Maradona...

         Autor de livros determinantes para entender nossa ancestralidade latina, como “As veias abertas da América Latina”, “Memórias do fogo” – trilogia - e “Caçador de histórias”, Galeano teria muito mais para falar agora. O que diria, por exemplo, sobre a agressiva presença árabe no futebol europeu, comandando o Manchester City, PSG, Newcastle e outros? E sobre a intenção da Arábia Saudita em criar a quinta maior liga de futebol do planeta, suplantando a França? Os investimentos são pesados. Até o indecifrável Neymar foi parar lá com um salário de 160 milhões de Euros por ano – dois anos de contrato -, equivalentes a R$ 1,2 milhão por dia. O escritor talvez trocasse os dribles curtos e precisos por carrinhos ameaçadores. Afinal, os árabes estão comprando apenas simpatia para suas autocracias. O futebol está em segundo plano.

         Outro craque das linhas e entrelinhas, o jornalista Armando Nogueira (1927 – 2010), certamente lançaria algumas bolas em profundidade para mostrar sua insatisfação diante dos rumos que o futebol está tomando, tornando-se mais elitista do que nunca. Prova disso é que, segundo ele, o futebol brasileiro só chegou ao poder quando Lula foi eleito presidente, em 2002. Ele foi o primeiro que verdadeiramente torcia por um time, o Corinthians. Ia aos jogos e torcia de brandir a bandeira corintiana nas arquibancadas do Pacaembu. Até sua eleição, o esporte mais popular do país não teve um presidente com essas características. O general Médici, que era gremista assumido, tinha cheiro de dor. Acompanhava o time pelo radinho de pilha. O general Figueiredo se dizia torcedor do Fluminense, mas gostava de outro cheiro, o dos cavalos. O anterior é vascaíno, mas, assim como no partido, veste qualquer camisa.

         O Brasil está atrasado. Enquanto o mundo esportivo se mexe na velocidade de um petardo do Rivelino a gol, o brasileiro permanece na retranca, no melhor estilo Joel Santana, e, há dois anos, não consegue fazer com que seus clubes se unam em torno de uma liga poderosa, a qual permitiria rivalizarmos com as maiores da Europa, como as inglesa e espanhola. A Arábia Saudita já saiu na frente. E não são apenas os dirigentes que claudicam. O país não tem árbitros profissionais, os jogadores perdem mais tempo caindo no chão e reclamando dos juízes do que se concentrando no jogo. E as torcidas – ah, as torcidas! - preferem se matar na saída dos estádios ao invés de torcer apenas.

         De bom, pelo menos, temos o futebol feminino. A nossa seleção foi eliminada no início da Copa, mas mostrou que o caminho está certo. As meninas, e aí incluo todas as seleções na Austrália – Nova Zelândia, foram à terra dos cangurus para jogar bola. Com elegância e charme, evitaram catimba, cera, deslealdade, ataques aos árbitros, forjar contusões ou dar cotoveladas – uma febre entre os homens. Apesar do futebol ainda estar, tecnicamente, distante do futebol masculino, jogaram, correram e disputaram cada metro do campo com “fair play” e respeito às colegas de trabalho, algo raramente visto no masculino. O nosso maior clube, o Flamengo, trocou o futebol por pugilismo duas vezes em 15 dias. É o exemplo que dá à torcida. Está faltando lisura, transparência, educação e profissionalismo.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 18.08.2023

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