Que país é esse?
Cláudio Pimentel
Que passado o “país do futuro” terá no futuro? Se der certo, ninguém dará bola às “emes” que já fizemos e continuamos fazendo. Mas, e se não der? Tim Maia, o síndico da irreverência, bramiu há 40 anos que o Brasil não dá certo porque aqui prostituta se apaixona, cafetão sente ciúmes e traficante se vicia. Era um diagnóstico com vocação para nos fazer rir mais do que pensar. Porém se resolvermos olhar hoje ao redor e pensar, vamos constatar que estamos bem piores: o Brasil agora não dá certo porque o “cidadão de bem” burla, frauda, falsifica, adultera, manipula, ostenta, mente, segrega, escraviza e estupra. É o malandro oficial, de gravata e retrato na coluna social, como previu o príncipe da resistência: Chico Buarque.
O episódio envolvendo uma mulher carregada, como carcaça bovina, para um matagal, em Minas Gerais, só não é mais surreal do que a surreal atitude de quatro cidadãos, que deveriam tê-la protegido: o amigo da boate, que a colocou embriagada num carro de aplicativo; o motorista do veículo, que a deixou desacordada na beira da calçada de casa; o irmão dela, que a aguardaria chegar e dormiu; e uma besta-fera, que saiu das sombras para levá-la a um campo de futebol, onde a estuprou durante horas. Ah, sim, ela como vulnerável se permitiu ficar mais vulnerável ao beber em demasia! Mas, e daí? Mais um motivo para que os covardes a protegessem dos riscos. Não foi assim. Esconderam-se como ratos. Jogaram a fraternidade no lixo.
Não é à toa que um levantamento do 16º Anuário Brasileiro de Segurança Pública apontou Minas Gerais, em 2021, como o estado com mais casos de feminicídios registrados. Foram 154 casos, três a mais que o registrado em 2020. São Paulo vem depois com 136 ocorrências. Foram os únicos a registrarem mais de 100 casos de violência contra a mulher. Não surpreende, considerando que os dois estados são governados por aliados do ex-presidente Bolsonaro, sempre reticente quanto ao papel da mulher na sociedade. Um deles, Romeu Zema, de Minas, protagonizou um mico político recentemente. Defendeu a separação dos estados do Sul-Sudeste do Norte-Nordeste. Motivo: lá, eles trabalham; e aqui, vive-se de auxílio. Raciocínio primário. Falta-lhe estudo. Sobra preconceito. Jogou a igualdade no lixo.
O preconceito é a arma dos despreparados, que não têm algo profundo a dizer. Se observarmos a imprensa, o preconceito vende mais que banana. É fácil de entender. E perceptível até quando não é dito. Todas as manhãs, ao final de um noticioso da TV, a equipe de apresentadores despede-se desejando um “dia iluminado”. Em seguida, outro noticioso entra no ar e inverte tudo, anunciando manchetes tipo sangue, suor e lágrimas. Vira “dia sombrio”. É o jornalismo boletim de ocorrência, que gera distorção: o algoz é negro; e a vítima, branca. Não há menções racistas e nem desejo para tanto, mas as imagens falam por si. E reforçam um estereótipo que vem da escravidão. Não há reflexão, mas um amontoado visando receita publicitária. É a liberdade no lixo.
A imprensa, notadamente a de TV, vive uma simbiose com as redes sociais, onde discussões e informações buscam o irrisório, o risível, o grotesco. Viraram tribunais. A intensidade dos locutores de rádio migrou para a tela. É tudo aos berros. Ignora-se a imagem, ausente na rádio. E, por isso, intenso. Um dia desses, um comentarista esportivo gritava no ar contra um técnico local e avisava que não queria agredi-lo. O que era, então? No noticiário político, as CPIs têm interpretações antagônicas: para a imprensa de direita e extrema direita, os algozes do quebra-quebra de 8 de janeiro são vítimas. Certo e errado são uma questão de opinião. Nos canais moderados, os algozes são os algozes, seguindo os fatos. A imprensa de esquerda inexiste. Portanto, não há legado ou passado que nos aflija. E nem, muito menos, Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Que país é esse?
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 11.08.2023
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