Meu tipo inesquecível
Cláudio Pimentel
“Sou uma coisa que pensa”. Descartes
Pensar para viver ou viver para pensar? Os dois modos, diria eu sem pestanejar. Ambos nos acompanham. No primeiro, muito do que acontece conosco depende de ininterruptas decisões diárias: o melhor horário para ler, marcar um encontro, escolher uma roupa ou cuidar do jardim. É agendar o cotidiano. No segundo, porém, temos aquelas ações e reações em que o viver vem antes do pensar. É o que fazemos no “automático”: fechar a casa, dirigir o carro, lavar a louça, coisas que dominamos pela repetição e, por isso, somos capazes de executar com a cabeça noutro lugar. Quantas vezes você já se pegou perguntando se fechou ou não a porta ou onde deixou um objeto que há pouco estava em suas mãos?
Num encontro familiar, no último fim de semana, fui surpreendido duas vezes pela minha sogra: inicialmente, por se lamentar de não ter escrito, lá nos idos de 1960, à “Seleções - Reader’s Digest” um artigo sobre seu irmão, o médico baiano Renato Moura Albuquerque, para uma coluna famosa da revista, intitulada “Meu tipo inesquecível”; e, posteriormente, por nunca ter ouvido falar da prestigiada coluna, cujo nome me impactou logo de saída. Onde é que eu estava com o pensamento nesses anos todos? – um jornalista desconhecer tal coluna! Como desculpa, tenho o seguinte em minha defesa: nunca havia lido Seleções por preconceito. Para mim, ela era um instrumento de propaganda da ideologia conservadora do rico protestante, armado e caipira dos EUA.
A coluna de Seleções contava histórias de pessoas especiais, articuladores de um convívio amigável, com fins específicos e no sentido do bem comum. A minha sogra, pelo menos, via isso no irmão: alguém que sabia ver pessoas e coisas; de reconhecer necessidades sem que o amigo precisasse enunciá-las; capaz de fazer algo para alguém, fosse complexo ou simples, antes da pessoa desejar. “Meu tipo inesquecível” trazia histórias de pessoas comuns que falavam de outras pessoas comuns que haviam influenciado suas vidas. Não perdoo, em mim, tal desconhecimento. A coluna era genial – não sei se ainda existe. Tão genial que passei a semana procurando meu tipo inesquecível. Quase enlouqueci, como cantou Bethânia em “Olhos nos olhos”. Listei pessoas. Nada. Estava cego.
Criei, então, um modelo científico para chegar ao alvo. Não inclui pai, pois a concorrência seria desigual. Pai é um tipo inesquecível natural. É por amor, por instinto, por afinidade. E nisso, ele foi irrepreensível. Acima de juízos. “Hors concours”, diriam os franceses! Decidi colocar um requisito: o que essa pessoa teria feito pela minha vida. Afinal, é esse o nosso maior desafio no mundo: escolher uma vida. Para mim, é o que pode tornar algumas criaturas inesquecíveis. Enfatizo que escolher uma vida é, antes de tudo, preterir muitas outras vidas. Imagine quantas vezes já fomos capazes de descartá-las, quando não deveriam! Quantas dessas seriam melhores do que as que escolhemos? Impossível responder. Porque nem sempre é fácil escolher a melhor das vidas.
Continuei minha busca adicionando algo mais: aquele que me inspirou e me mostrou caminhos a trilhar. As luzes, então, se acenderam e quem surgiu foi o jornalista Francisco Viana, “Meu tipo inesquecível”. Um irmão, amigo e professor por mais de 40 anos. E que não está mais entre nós. Coincidentemente, foi em 25 de agosto de 2019 que partiu. São quatro anos de uma ausência sentida. De uma ausência anunciada. Os rumos do Brasil lhe fizeram mal. Ele sentiu na pele o ódio que emanava nos anos que antecederam as eleições de 2018. Perdeu negócios por ser ético e condenar o retorno de modelos heterodoxos de governar. A perseguição às esquerdas causava-lhe suores frios. A febre trazida pela extrema direita, danos. Estava infeliz. O país fechara-se para quem pensava. Ele viu o país cair no abismo. E todos que pensam, viram o tamanho do buraco. Um beijo, esteja onde estiver.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 04.08.2023
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