sexta-feira, 28 de julho de 2023

crônicas

Ave Cesar!

Cláudio Pimentel

Todos os caminhos levam a Roma, e, agora, também ao sítio arqueológico do Largo Argentina, restaurado depois de 2.067 anos de abandono, tempo em que ficou relegado aos gatos e aos fantasmas do primeiro grande império. Área sagrada com quatro templos, ali ocorreu, ao ritmo sincopado de 23 punhaladas, o assassinato mais famoso da história: o do general e ditador romano Júlio César, em 44 AC – ele tinha 55 anos. O local foi reaberto à visitação pública e deverá atrair milhares de turistas, entre estudiosos e admiradores. É possível até que a famosa expressão de surpresa de César, ao ver o próprio sobrinho entre os assassinos - “Até tu, Brutus?” -, passe a ecoar no espaço, brindando, como seria em Disney, a todos que forem ao local.

A política em Roma recrudesceu depois do crime, perpetrado por jovens senadores que temiam o fim da República. Eles conspiraram contra o general e, como solução, decidiram esfaqueá-lo até a morte no Largo Argentina. O sempre antenado Shakespeare, pegou a tragédia e deu cores artísticas, elevando-a ao patamar máximo de tensão, horror e perseguições, em meio aos jogos de poder. Dois filmes, baseados em sua obra dão o tom: “Júlio César” (1970), com Charlton Heston, no papel de Marco Antônio, John Gielgud, como Júlio César, e Jason Robards, encarnando o temerário Brutus; e “À sombra das Pirâmides” (1972), quando Marco Antônio, novamente encenado por Heston, se vê, ao lado da “namorida” Cleópatra, emparedado no Egito por Octávio, outro sobrinho de César, e agora o grande imperador Augusto César.

Não entendo o desejo do ser humano em ver o lugar onde certos eventos históricos ocorreram. Prefiro ler sobre eles, e imaginar. Apesar disso, conheci alguns e refleti sobre o que os personagens faziam, como se sentiam ou como chegaram até ali. Vi em “La Conciergerie” a cela onde Maria Antonieta permaneceu antes de ser guilhotinada. Não merecia tal destino, nem seus filhos, com a perda da mãe, e nem sua insensibilidade ao propor brioches a quem tinha fome. Vi também, em Versailles, o quarto e a cama onde o rei Luiz XIV, dormia. Nada demais. Só “Caras”. Uma mistura de luxo e cafonice – o “nouveau riche” atravessa os tempos. Em mais de uma ocasião, tive a oportunidade de conhecer a Serra da Barriga, onde se localizava o Quilombo dos Palmares, fundado por Zumbi, um rei forjado a ferro e fogo nos trópicos. A longa e íngreme ladeira, porém, me desanimou.

Entendo que esses espaços são patrimônios impagáveis, mas não me atraem. Repelem. Sou a favor de que sejam criados. Só assim as pessoas aprendem o quão desumana é a humanidade. E jamais a repitam. No filme “Tudo acontece em Elizabethtown” (2005), soube que o “Motel Lorraine”, em Memphis, Tennessee (EUA), mantém intacto o pequeno quarto em que Martin Luther King se hospedou, em 4 de abril de 1968, véspera de encontros e ações pelos direitos civis na cidade. Ele se preparava para jantar quando saiu na sacada e foi atingido no pescoço pelo disparo de um rifle. O quarto encontra-se aberto à visitação. Jamais o verei. Fui apenas uma vez às ruínas do Castelo Garcia D’Ávila, em Praia do Forte (BA), e nunca mais voltei. “Vi” sangue nas paredes. “Senti” lágrimas caindo. “Ouvi” gritos de dor.

A descrição feita pela professora sobre o esquartejamento de Tiradentes, líder da Inconfidência Mineira, me causou arrepios. Hoje, qualquer menção sobre o mártir lembra-me o prazer dela narrando a história. Falava como se referisse a lobisomens, mulas sem cabeça e outros seres fantásticos prestes a nos engolir. Era sádica. Os portugueses repetiram com Tiradentes as cenas da Paixão de Cristo e foram tão ou mais cruéis que os soldados de Pilatos. Um colega saudoso, porém, foi assistir, na Semana Santa, em Pernambuco, a saga de Nosso Senhor, encenada em teatro aberto. Voltou chocado e cansado, é claro! Não aguentava mais correr atrás dos atores encenando o sofrimento de Cristo até ser crucificado. “Preferia assistir a tudo sentado”, dizia com cara sapeca. Pensei comigo: não quero a dor dos outros nem de camarote.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 28.07.2023


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