Conspirações do cinismo
Cláudio Pimentel
Hoje acordei decidido a trocar a Orla de Itapuã pela Grande Muralha da China para fazer minha caminhada matinal. Cumpriria seus 21 mil km de comprimento com o pé-nas-costas, assumindo apenas o sacrifício de acordar mais cedo para voltar a tempo de tomar café com mulher e filhos. Mas, deixando o escapismo pequeno burguês de lado, é impressionante como nossos antepassados, ainda no florescer da humanidade, já exibiam uma incontinente mania de grandeza, megalômana ao ponto de fazer inveja em gente como Elon Musk, que, não duvido, já deve estar pensando em propor um Tratado de Tordesilhas na Lua. Metade seria dele e a outra de Jeff Bezos, dono da “Amazon”. E, entre os dois, uma muralha.
Os chineses não mediram prazos para construi-la. Passaram quase dois mil anos dedicando-se a tão gigantesca e excêntrica tarefa. Os egípcios fizeram o mesmo, montando pirâmides como se fossem Lego, e os “rapanuis” também, moldando estátuas (moais) de até 50 toneladas, na chilena Ilha de Páscoa. Assim como os templos Incas, Maias e Astecas, nos Andes e México, tornaram-se tão memoráveis quanto incompreensíveis, pois surgiram numa época em que não existiam ferramentas, guindastes ou elevadores. Era no braço, de pobres braços. O escritor suíço Erich Von Däniken, de tão estupefato com o tema, erigiu um livro ambicioso, mas impreciso: “Eram os Deuses Astronautas?”. Nele, sugere que tudo foi obra de ETs. É pura conspiração, mas há quem acredite.
Em “A república”, Platão tece uma alegoria que leva nossa consciência às cordas. Ele descreve a imagem de prisioneiros que, desde a infância numa caverna, conseguem ver apenas sombras de si mesmo, nunca a imagem real deles. Um, entretanto, consegue se libertar, chegar à superfície, ver o sol e retornar à caverna para contar o que viu e descobriu. É ridicularizado e, se não parasse com as maluquices, seria morto. O conhecimento da realidade seria maluquice? Por que transitar da escuridão da caverna para a luz do conhecimento é difícil? A caverna de Platão demonstra que o condicionamento mental resiste a mudanças. Não é facilmente superado. É preciso trabalho para reconstruir nossas mentes e criar uma cultura de não ao ódio, à violência e ao preconceito. Eles nada constroem. É preciso reconhecer.
Acredito que o semiólogo Umberto Eco quando escreveu “Apocalípticos e Integrados” (1993) jamais imaginou que a cultura de massa, assunto do livro, chegaria ao ponto de, após Internet e Redes Sociais, gerar guerras fratricidas pelo controle da cultura. De um lado, os Apocalípticos (progressistas) acusam a indústria cultural de defender a ideologia dominante. De outro, os Integrados (conservadores) defendem que ela democratiza a cultura para as massas, dando acesso aos bens da chamada alta cultura. Os apocalípticos acusam os integrados de alienar as massas. Os integrados negam e garantem: a indústria cultural cria a possibilidade de fazer todos se comunicarem, graças à quantidade maior de informação. Os Apocalípticos defendem a qualidade do que se oferece e os Integrados, a quantidade.
Não é difícil hoje perceber que temos uma mídia, se falarmos em literatura, música e cinema, direcionada para um público cada vez maior e mais indiferente, que está mais interessado, por exemplo, na vida dos autores do que de suas obras. Num mundo impaciente e estressado como agora, poucos querem saber de literatura, do cinema de arte ou da alta música. Tudo aquilo que for oposto à cultura de massa, autoral, é dispensável... até desprezível... O importante é a série nas plataformas de streaming, o livro que cria desejos e necessidades e músicas que alimentem o coração vingativo e o quadril versátil, todos com poder de reunir exércitos de fãs. A produção é feita para atender o mercado e o gosto médio. E a mídia alimenta o raciocínio. A caverna de Platão engoliu-nos a todos. Antes da megalomania é a afasia que comanda o circo.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 21.07.2023
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