Um modo de olhar o tempo
Cláudio Pimentel
A mágica nos ilude, aguça a razão. A magia, não. Ela seduz, visa a alma, conduzindo-nos à fruição, por meio de seres fantásticos e ações simbólicas. Em algumas coisas, porém, se igualam: propiciam prazer estético e demovem a aflição cotidiana – angústia, tristeza, pessimismo. São aspirinas para a mente; bálsamos para o coração. Acho que é por isso que gosto de efemérides. Sempre as li nos jornais. Funcionam como máquinas do tempo. Têm muita bobagem, é verdade, mas não podiam faltar. Assim como também não podiam faltar as palavras cruzadas e as tirinhas em quadrinhos. Deixava os três por último - recompensa à leitura de outros assuntos, a maioria sob a égide do bem e do mal.
A efeméride permite saber o que ocorreu hoje, 14 de julho, em vários anos passados. Ou, então, saber que o ex-presidente Sarney nasceu no mesmo dia que eu, 24 de abril - Barbra Streisand e Shirley MacLaine também, o que atenua o choque. A queda da Bastilha foi em 14 de julho, dando início à Revolução Francesa, evento que dividiu o mundo em antes e depois. Tirou a nobreza e o clero do centro do Estado e colocou o Homem no lugar. E, para não ter dúvidas, incluiu a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão na Constituição. Tem também que, em 1909, foi inaugurado o Teatro Municipal do Rio; o Canadá aboliu, em 1976, a pena de morte; e o Adail, carregador de malas do aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, fez, em 1999, sua primeira viagem de avião. Quem?
Adail José da Silva, de 62 anos, tinha 36 de trabalho como carregador quando deu um depoimento à jornalista Eliane Brum, do Zero Hora, do Rio Grande do Sul, confessando que nunca voara. Ela era responsável por uma coluna do jornal, batizada de “A vida que ninguém vê”, cujo objetivo era, por meio de reportagens, revelar a existência de personagens, como Adail, que geralmente ninguém dava atenção àquela época. Foram 46 colunas, em 11 meses, de muito sucesso. Virou livro e foi premiado. Ganhou, em 2007, o Prêmio Jabuti, um dos mais importantes da língua portuguesa, na categoria reportagem. Lembro-me a primeira vez que o vi. Não conhecia a autora, mas o título, “A vida que ninguém vê”, me hipnotizou. Acariciei a edição, passei os olhos pelas crônicas e, não tive dúvidas, fui enfeitiçado.
A menção do livro de Eliane Brum não é um acaso. Os personagens trazidos por ela, cercados de respeito, amor e poesia, só reforçam que 20 anos depois pouca coisa mudou em nosso olhar em relação aos mais humildes, seja em Porto Alegre, acredito, seja, em Salvador, tenho total certeza. Conheço, por exemplo, um personagem que se posiciona, pontualmente, todos os dias, ao lado de uma casa de material de construção. Está desempregado não sabe mais há quanto tempo, mas sabe que nesse tempo todo jamais ficou um dia sem trabalhar. É um “Faz Tudo”. E pouco se sabe sobre ele. Às vezes, é necessário esperá-lo voltar ao posto. Está numa missão. Melhor marcar hora. Ele tem um sonho: conhecer as netas que moram na Europa.
Em “Enterro de Pobre”, na qual Eliane narra a vida antes, durante e depois do enterro de uma criança, ela desenterrou da minha memória o dia em que descobri que criança também morre. Eu devia ter uns 7 anos quando vi na casa do vizinho um grupo de pessoas sentadas ao redor de uma mesa, que tinha uma caixa branca fechada sobre ela. Todos estavam quietos. Uma mulher chorava sozinha. Quando pegaram a caixinha, ela gritou: meu filhinho. E nada mais disse. Pensei: ali tem uma criança. O sol estava forte e as pessoas estavam de sandálias. “Não há nada mais triste do que enterro de pobre. Porque o pobre começa a ser enterrado em vida”, diz Antônio, pai do menino morto na crônica. Acho que era o mesmo que diziam no enterro que vi.
Cláudio Pimentel é jornalista.
Tribuna da Bahia – 14.07.2023
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