Melhor que resistir, é reexistir
Cláudio Pimentel
Quem é que cata as roupas do jornalista Clark Kent quando este assume sua metade Superman? Jamais saberei – e nem seus fãs pelas poltronas do universo. Desconfio que deve ser algum super-herói anônimo, que teria se perdido na carreira e sido afastado da sala de Justiça da Marvel. E, como castigo, foi designado a acompanhar o homem de aço despindo-se contra o mal, a cada instante, em Nova York, Londres ou Moscou. Afinal, bandidos globais agem na velocidade da luz – o noticiário, aliás, está cheio deles com contrato, gravata e capital. Ter um catador em cada canto do planeta seria um luxo inaceitável. Nem os mercenários do Grupo Wagner ousariam tanto.
O entretenimento na vida global é assim, nos leva a questões que jamais perturbariam Sócrates, Platão ou Aristóteles. Depois das redes sociais, então, deixaram de ser platônicas, para ganharem o status de atômicas. E de serem tão indispensáveis como cobrar da ciência uma solução definitiva para a deglutição do espaguete: o que fazer para não se lambuzar todo no molho sugo ou bolonhesa? Quando não é o queixo é o nariz. Quando não são os óculos é a gravata. Um inferno, suportável apenas pela harmonia do alho, tomate, cebola e manjericão. Há quem sugira o uso da colher ao se sugar o macarrão, mas os acidentes continuam, em particular no segundo prato.
Quem dera que as preocupações se resumissem a devaneios dessa monta. Seria um modo gostoso de lidar com o duro e injusto cotidiano, que já foi um barato e ainda é, se nos abstivermos dos noticiosos da TV. Neles, não existem mais cães que ladram, mas hienas que ululam. O jornalismo abdicou do contraditório, do inesperado e do errado para espreitar o que sobra do jogo pesado do capital e da marota mão invisível do mercado. A morbidez ganhou divisas: deixou de ser um alento para o telespectador débil e tornou-se alimento para vampiros extremistas. Os telejornais só têm câmeras para sangue, apelo e confronto. Unha encravada agora é fratura exposta.
Com os “smartphones” e suas câmeras sempre à mão, o noticiário foi invadido por milhares de horas de inesperadas imagens do mundo-cão. Tudo vai ao ar. Se há filtro, é indulgente. A maioria carente de informação, levando o locutor a especular e utilizar o “nariz-de-cera” – embromação – para dar veracidade ao que não tem nada. Viram narradores de imagens repugnantes. A última é de um bebê queimado com água fervente. Sadismo desprezível. Há 15 dias, um homem foi agredido até a morte nas imediações da rodoviária. O ataque foi gravado por diversos aparelhos. As imagens foram ao ar. Ninguém impediu o assassinato. Filmar valia mais que a vida. Todos tornaram-se cúmplices de um crime. Até as TVs, que, exibindo, as alimentam. Grotesco.
E foi rompendo com o grotesco da realidade que o genial dramaturgo Zé Celso Martinez construiu uma das mais profícuas e brilhantes carreiras como criador intelectual. Fundador do Teatro Oficina, em 1958, em São Paulo, e desde então, seu mentor, Zé Celso rumou à eternidade de alma e tudo. Vai lá quebrar o tédio. Estudei o Tropicalismo e o espetáculo Rei da Vela, dirigido por ele, durante um semestre na faculdade de Comunicação. Foi um desbunde. Eu tinha 18 anos. Além do grotesco, Zé Celso rompeu com o arcaico e o conservador na cultura popular, redesenhando para o palco tudo o que via, com transgressão e inovação. Deixou um legado infinito e transformou a cultura do país. Deu-lhe verniz vanguardista, fazendo um teatro político, sensorial e coletivo. Não sou de resistir, sou de reexistir, dizia ele. Vai fazer falta. Até sempre, Zé!
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 07.07.2023
Nenhum comentário:
Postar um comentário