sexta-feira, 30 de junho de 2023

crônicas

O cabeção brilhante de Einstein

Cláudio Pimentel

         Como deter a desabalada queda de esperança? É geral. Só não vê quem não quer. Os primeiros números do IBGE sobre o censo revelam um Brasil que está há 12 anos descendo a ladeira. E o social é a vítima. Imperdoável! Onde estávamos? Brincando de Fake News nas redes sociais? Lustrando nossa notória indolência para com a comunidade? Ou inflando o desapego a tudo que lembre nossa humanidade? Quando, onde e porquê nos separaram? Afinal, humanidade é um processo coletivo que não exime ninguém. O retrato é desalentador - os brasileiros abandonaram os brasileiros - e propõe uma parábola - o homem sozinho é um homem mal acompanhado, fadado à infelicidade. A história é cheia de exemplos.

         Responsável por conduzir a humanidade a dar o seu maior salto na história do conhecimento, o que Albert Einstein, considerado o gênio dos gênios, diria? No livro “Como vejo o mundo”, ele trata sobre a formação do homem, trazendo à tona temas como o sentido da vida, responsabilidade social, respeito às minorias, liberdade, educação, guerras e convivência pacífica entre nações. Analisa tudo com espírito humilde e humanista. E se impacienta com os cenários: “Vejo os homens se diferenciarem pelas classes sociais e sei que nada as justifica a não ser pela violência”, critica, contrapondo em seguida: “Sonho ser acessível e desejável para todos uma vida simples e natural, de corpo e espírito”.

         Desde criança desejei ter algo invejável. Se alguém dissesse nariz, pensava em Pinóquio; orelha, Dumbo; boca, a minha; e inteligência, a do professor Pardal. Na juventude, foram substituídos: Cyrano de Bergerac, Van Gogh, Mick Jagger e Einstein. Eu sonhava com seu QI. Me sentiria aceitável em qualquer tribo. Meus lábios, por exemplo, estressavam-me. E qualquer “defeito” virava suicídio social. Hoje tudo nos separa: cor, cabelo, altura, raça, gênero, religião... O mundo só quer dividir. Mas ser inteligente com o cabeção do Einstein não seria problema. Porém, o que diferenciava seu cérebro dos demais não era o tamanho, mas a quantidade de neurônios: 15 milhões. O peso do dele estava na média: 1,23 quilo. E Einstein pouco ligava. Ele se impunha, como missão, servir o outro.

Nunca imaginei que iria um dia ver as abelhas correndo risco de extinção como ocorre em metade dos EUA. Ouvindo “Cigarra”, da cantora Simone, depois de muito tempo sem ouvi-la, despertei para o fato de que elas, assim como os vaga-lumes, desapareceram dos grandes centros urbanos do país. Noutro dia, alguém gritou: “Um vaga-lume!”. E todos correram para ver. Era um “estalinho” que quicou na parede, criando o efeito pisca-pisca. Pequenos detalhes como estes estão virando motivos de discussões entre as Nações. Brasil e países do hemisfério Sul querem, dos mais industrializados do Norte, indenizações pelos estragos à Natureza. As queimadas no Canadá tornaram-se um problema. A fumaça encobriu metade do mundo. É reflexo das mudanças climáticas que, com as chuvas, inundam o Brasil.

O IBGE mostra que as populações do Rio de Janeiro e de Salvador encolheram. Ao meu ver, o principal motivo é a violência. Não bastasse a ausência do estado, a crueldade dos criminosos e a dificuldade dos aparatos de prevenção e repressão, ainda há a presença de um jornalismo mesquinho, sensacionalista e embrutecedor, que dissemina medo, criando um clima de total ausência de solução. É o caos da segurança na forma mais doentia, na qual o cidadão se convence de que não há mais a quem recorrer. É a derrota da notícia. E a vitória do vil-metal, do nariz-de-cera, da inconsistência e do achismo. Num ambiente assim, não dá nem para curtir Rihana e sua incandescente “Shine Bright like a Diamond” (Brilhe como um diamante). Que deveria ser o destino de todos nós.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 30.06.2023

Nenhum comentário:

Postar um comentário