As 11 mil virgens
Cláudio Pimentel
O milenar erro de um monge alemão me pegou em cheio nesta semana de feriadão de Corpus Christi. Ao traduzir do latim para o idioma teuto a lápide de Santa Úrsula, morta por rejeitar casar-se com Átila, o rei dos Hunos, como “Santa Úrsula e as 11 mil virgens”, não só alimentou o mito, como deu por quase dois milênios motivos para piadas e intrigas. Se verdadeira ou não, a estória, porém, acabou atingindo uma das mais extraordinárias bibliotecas da Europa pós Renascimento, a portuguesa, que ficou conhecida como a das “11 mil virgens”, numa nada sutil indireta à ignorância da monarquia e da nobreza lusitanas, que jamais teriam aberto um livro na vida, especialmente os dela. Aliás, preconceitos e ameaças às bibliotecas são comuns em todos os tempos.
Com mais de 60 mil volumes, a Real Biblioteca portuguesa era, à época, vinte vezes maior que a Biblioteca Thomas Jefferson, do Congresso norte-americano, hoje a maior do mundo. O rico acervo dela foi trazido ao Brasil, quando Dom João VI, fugindo da megalomania imperial de Napoleão, reuniu a corte e resolveu mudar de ares, visitando sua principal colônia. Depois de uma rápida passagem por Salvador, decidiu fincar endereço no Rio de Janeiro, bem mais distante das garras francesas. Há, porém, quem entenda que o epiteto “11 mil virgens” esteja relacionado a incomum prática do catolicismo português, com total apoio da corte: enviar ao Brasil simbólicas “cabeças de virgens”, as mesmas de Santa Úrsula, para formar católicos. Coisa de doido.
Apesar das inúmeras trapalhadas para trazer a Real Biblioteca, ela acabou se tornando o início da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, considerada pela Unesco uma das dez maiores do mundo. Foi ali que, por mais de um ano, ao frequentá-la quase diariamente, espantei muitos fantasmas internos e boa parte dos preconceitos, a maioria fruto do peculiar cotidiano de um lugar onde todos se acham “espertos”. Ah, o Rio! Fazendo pesquisas para alunos de cursos de mestrado e doutorado, ali no início dos anos 1980, pude ver a grandeza da biblioteca e admirá-la. E mais: aprender. Foi lá que li pela primeira vez sobre “Geração Z” ou “Gestalt Terapia”, que viraram, depois, assuntos de jornais. Uma alta funcionária de banco público fazia mestrado de Ciências Sociais e me contratava para levantar informações.
Mas inesquecível foi uma longa pesquisa que fiz para um outro trabalho. Era sobre o golpe de estado de 1964. Missão: ler e classificar todos os editoriais do principal jornal do Rio de Janeiro, nos anos 1960, o Correio da Manhã. O período seria entre a renúncia de Jânio Quadros e o golpe militar. O matutino, de propriedade de uma família abastada e bem posicionada entre os mais ricos, estava firmemente contra as ameaças de golpe no país. Entendia que Goulart fazia uma administração ambígua, de muitas reticências e poucas definições, mas era um governo legítimo e devia, por isso, ser respeitado. As pressões, porém, que levaram Getúlio ao suicídio dez anos antes, estavam mais intensas, e tinham padrinhos poderosos. O Correio da Manhã havia se tornado a única andorinha do verão. Depois do golpe, foi fechado.
Os Estados Unidos foram os que melhor entenderam a importância das bibliotecas como fontes de conhecimento. As espalharam por todo o país. Viam-na como um ambiente que valoriza o espírito humano na sua luta contínua contra o obscurantismo, praga que nos persegue e aflige. As bibliotecas disponibilizam autores que nos convocam a refletir, a sonhar e a pensar. Guardam obras vivas que animam a exploração, a experimentação e o gosto de ler. As bibliotecas reúnem todos os segredos do mundo, do tempo, do homem, da alma e do inominável. Nada é mais triste do que a resposta de um califa à pergunta feita por um general sobre que destino dar à lendária biblioteca de Alexandria, depois de dominada: “Com relação aos mencionados livros, se o que vem dito neles concorda com o Livro de Deus, eles são desnecessários; se discorda, são indesejáveis. Destrua-os, portanto”. Muitos ainda pensam assim, talvez sonhando com as mil virgens. Jamais com livros.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 09.06.2023
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