sexta-feira, 16 de junho de 2023

crônicas

Enciclopedismo tóxico

Cláudio Pimentel

         Pessoas outsiders vivem em silêncio por aí. Elas guardam segredos: viram discos voadores; viajaram neles; descendem de alienígenas; acreditam ter vivido outras vidas; conversam com mortos; e conhecem o lugar para onde eles vão. Loucura? É fácil dizer, mas injusto. Do que se trata, então? De românticos que se deixaram seduzir pelo mistério? Ou de ingênuos presos à obsessão de serem diferentes? As possibilidades são infinitas. Surpreendem. Eu fui um viajante do tempo. Coisas de um sonhador.

         Diferente do filme “Meia noite em Paris”, em que o personagem viajava para o passado ao entrar num carro, eu comecei a viajar para o futuro quando, em 1977, passei a entrar na sala de aula do terceiro ano científico, do Instituto Iguaçuano, onde estudava, no Rio. A escola, que tinha a “disciplina” como principal valor, teve que mudar por necessidades econômicas. O sucesso dos cursos para o vestibular foi o culpado, pois estava roubando alunos. A chance de aprovação era maior.

A mudança, para nos manter, foi radical. Construiu-se um prédio novo, separado das antigas instalações. Uma equipe inteira de professores foi contratada de um cursinho com surpreendentes índices de aprovação. O Iguaçuano cortou na carne. A obrigatoriedade de uniformes e as revistas na entrada do colégio foram abolidas. Caiu a exigência dos cortes de cabelo no modelo militar. E os alunos podiam sair do colégio no recreio. A alegria voltou. O prazer pelo estudo também. Mas o melhor ainda viria.

Sentimos que a mudança era para valer quando chegaram os professores. Eram descolados. Diferentes do que tínhamos até então. Pareciam pertencer ao Instituto Xavier para Jovens Superdotados – não que nos encaixássemos nessa condição, mas porque eram especiais. Se vestiam como a gente, falavam como a gente, lanchavam com a gente e a média de idade era inferior que a dos outrora professores. Em Português, passamos a ter três deles: Literatura, Gramática e Redação. Em História, dois: um para Brasil e outro para Geral. E é aí que entra a figura mais emblemática da viagem: Jorjão.

Preto, um metro e noventa, pouco mais de 30 anos de idade, ele destoava daquele ambiente, especialmente por suas aulas: intensas. Tudo ia bem até um dos alunos, “Silvão”, começar a medir forças com ele, propondo debates e confrontando o que dizia em sala. Jorjão jamais perdeu a compostura. Levava tudo com humor, picardia e leveza. Assim como os outros professores, ele tinha jogo de cintura e a máxima: “Estou aqui para ensiná-los a vencer uma maratona”. O professor de biologia, por exemplo, ensinou-nos várias canções com mitocôndrias. Para Jorjão, não era o caminho.

Silvão trazia dados de casa para desafiar Jorjão. Este, por sua vez, alertava que este tipo de ação era coisa do passado. O importante era saber relacionar uma série de fatores históricos para entender o que realmente causaram os motivos, por exemplo, da Reforma Protestante, na Europa. Não adiantava decorar nomes, locais e datas. As enciclopédias fazem isso. Há coisas mais importantes, como a análise dos fatos e como influem na sociedade. Silvão tinha um potencial conhecimento enciclopédico. Mas só. Não entendia suas consequências.

Como exemplo de capacidade política, Jorjão admirava a rainha Mary Stuart, da Escócia, consorte real da França e concorrente de Elizabeth I ao trono da Inglaterra. Tudo se resumia às intrigas da época e à grave crise entre católicos e protestantes na Grã-Bretanha. Mas não era a religião o único fator a ditar os rumos. Havia um maior: como introduzir os valores burgueses capitalistas na economia sem perder a monarquia? A Revolução Industrial é fruto da perfeita compreensão desse período. Mary, que era católica, foi condenada à morte por Elizabeth I, protestante. Stuart era o risco.

Monarquias e Repúblicas vivem hoje, em suas políticas, as agruras do enciclopedismo tóxico, quando certos temas são levados, sem filtros, ao veredito público. As Fake News são um instrumento eficaz para condenar as “Mary Stuart” da hora ou assemelhados que ameacem poderosos grupos de força. A economia, por exemplo, começa a dar sinais de vida, a diplomacia internacional mostra evolução exemplar e as ações em torno do arcabouço fiscal e da reforma tributária atraem dividendos, mas a ênfase é o União Brasil, o Waguinho, sua mulher e o turismo. O risco é o Lula?

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 16.06.2023

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