O que não está acontecendo?
Cláudio Pimentel
Sinto-me tão antigo que posso jurar que o primeiro arco-íris que vi era preto e branco. Sou o primogênito de uma família cujo irmão mais velho não sou eu, mas uma televisão. O aparelho chegou antes de mim para fazer companhia à minha mãe, grávida e sozinha num frio apartamento no centro de São Paulo, em 1959. Presente do meu pai que vivia a correria da pauliceia desvairada. Serviu como “Nani”, não só para ela, mas para os filhos. A TV despejava o mundo na sala. Entretinha, criava desejos e consolava saudades.
Nunca mais o mundo de meus pais foi igual a antes. A realidade não era mais apenas o que viam nas ruas, mas o que a TV passou a ver. Somavam-se duas realidades. Uma de interpretação própria e outra que acrescentava o olhar do outro. O mundo que a TV trazia tinha uma realidade compartimentada, filtrada e múltipla em assuntos. Era a forma de atrair pessoas, pois vender produtos era o compromisso. A TV impulsionou uma nova forma de ver o que estava acontecendo. Passou a fazer cabeças, propor debates, apresentar animadores.
Hoje são as redes sociais que impulsionam uma nova forma de ver o que está acontecendo no mundo. E fazem mostrando uma realidade ampliada, explícita e sem filtros. É o que as “bigs techs” defendem para atrair pessoas, pois vender ideologias é o compromisso. Passou a reunir militantes, propor julgamentos e promover “influencers”. De análogo entre as duas dimensões, a tentativa de vender e insistir na tese de nos manter vendo o que está acontecendo no mundo. O mundo que veem e nos dão, é claro!
Não há movimento que mostre um caminho novo. É sempre a mesma fórmula apenas recondicionada. E o padrão é ver “o que está acontecendo no mundo”, como se essa observação permanente nos levasse ao revolucionário. Há séculos, constata-se a supremacia do ódio sobre o amor, da intolerância sobre a tolerância, da crueldade sobre a clemência, da maldade sobre a bondade. Aldous Huxley, autor de “O admirável mundo novo”, defendia que “a maldade deve ser encontrada, reconhecida e, se possível, evitada”. Seria a única forma de impedir que “os remorsos nos molestem quando descobrimos que nos comportamos mal”.
Para mim, algo revolucionário no ambiente repetitivo, caótico e obscuro seria negar “o que está acontecendo” e passar a observar “o que não está acontecendo”. Você conseguiria identificar para si o que não está acontecendo ao redor? Ou, então, fazer uma lista das coisas que não estão acontecendo e deveriam estar para nos melhorar ou melhorar o ambiente? Exemplo: a paz. Entre os “trends topics” deve ser um dos temas mais listados, para o bem e para o mal. O que é que não está acontecendo para termos paz?
Observar o que não está acontecendo não é simplesmente se contrapor ao que está acontecendo de errado. Pode ser algo que está acontecendo de errado, mas não é algo que se apresente logo como ausência. Há ausências mais profundas. Enchentes, deslizamentos, nevascas, secas, aquecimento são exemplos de coisas que estão acontecendo. O que significam? Num primeiro olhar, que nada está sendo feito para impedir as mudanças climáticas. Não é a mesma coisa que observar o que não está acontecendo.
Veja a questão do racismo. Há uma grande mobilização em torno do assunto, apesar das dificuldades que o tema encontra para sensibilizar a maioria das pessoas. O que não está acontecendo para erradicar o assunto da pauta mundial? Segmentos da ciência já estão trabalhando com o conceito do “o que não está acontecendo”. Há uma mobilização para levar a proposta à frente. É um caminho interessante num ambiente tão congestionado e pouco criativo que habitamos hoje. Não podemos ficar presos à dúvida, quase bíblica, sobre se temos um destino ou se flutuamos, como uma pena, ao acaso. Temos que fazer acontecer o que não está acontecendo.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 02.06.2023
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