sexta-feira, 23 de junho de 2023

crônicas

O lado B da vida

Cláudio Pimentel

         Os antigos sabem: o lado B era o outro lado do disco de vinil. Ele completava o lado A, que trazia os grandes sucessos, as músicas mais bonitas – as melhores lembranças. Apesar disso, foi a B que melhor entrou para o cotidiano, e não a letra A. Não consigo pescar o motivo, mas atiro algumas minhocas. Era o nome do Caderno B, do Jornal do Brasil, de cultura e entretenimento. O maioral na segunda metade do século passado. É a segunda letra do alfabeto e a segunda melhor nota na escola – metade dos alunos a tira. É o nome da vitamina que fortalece o sistema imunológico. Quando algo dá errado, apelamos para o plano B, que é “infalível”. Além de tudo, o B é sonoro, como bomba. Ou é como o bombril, tem mil e uma utilidades.

         Percebo que as pessoas estão loucas por um Plano B em suas vidas. Motivo: está barril, como diz a molecada perante as dificuldades. São tantas que até parece que o destino resolveu sabotá-lo. Por exemplo: uma excêntrica brincadeira milionária, um plano B para quebrar a rotina estressante dos grandes negócios, pode virar a maior tragédia marítima desde o Titanic, que está direta e ironicamente envolvido no caso. A aventura de quatro “big-shots” mundiais, que decidiram passear até onde estão os destroços do trágico super navio, a quase 4 mil metros de profundidade, ao custo de R$ 1,2 milhão por cabeça, é um inesperado reality show. Salvos ou não, a saga desse quarteto, mais o piloto, dono do submarino “Titan”, que os conduzia, vai atolar a mídia de livros, filmes, séries, reportagens especiais e homenagens.

         E quando o Plano B é sobreviver a qualquer custo? É, talvez, o que possa ser dito da aventura de quatro crianças desaparecidas por 40 dias na Floresta Amazônica, no trecho circunscrito à Colômbia. Elas foram vítimas da queda de um avião, na floresta. Um cão pastor belga, que ajudou a encontrar as crianças, com idades entre um e 13 anos, segue desaparecido. Outro reality show inesperado e cujo resultado é mais inesperado ainda. Sobreviver às condições era a última opção. Prendeu à TV milhares de pessoas pelo mundo. O caso não vai atolar a mídia, mas terá o mesmo tratamento: livros, filmes, séries, reportagens especiais e homenagens. Aventuras reais como essas sempre geraram grandes livros e filmes.

         Um livro clássico é “Hiroshima”, de John Hersey, que retrata seis sobreviventes da bomba atômica um ano depois da explosão e 40 anos mais tarde. Outro é “Zeitoun”, do escritor Dave Eggers, que retrata numa ficção a tragédia do furacão Katrina, em Nova Orleans. É a saga de Zeitoun, um sírio-americano que fica na cidade para salvar pessoas. E ainda “102 minutos”, de Jim Dwyer e Kevin Flynn, que narra a luta de pessoas para sobreviver à queda das Torres Gêmeas. Em todos, há sempre a presença de pessoas que pioraram o que já era ruim - sociopatas com cartão de visitas; espécime em proliferação no planeta.

         Como prova disso, os limites da decência foram rompidos no Brasil. Um senador foi capaz de, no caso de racismo contra Vinícius Jr., subir à tribuna para se mostrar solidário aos macacos que foram comparados ao jogador. Alegou que só defenderam o “Vini”. Outro senador, de feições delirantes e doentia, afirmou pela TV que mente à imprensa como estratégia de contra informação. Macularam o Senado. Indo além, duas notícias dominarão a ribalta: o julgamento de Bolsonaro, no TSE, e a taxa Selic do Banco Central. Ambos com B. O ex-presidente será julgado por mentir sobre as urnas para embaixadores. E o Banco Central por se isolar como o vilão da economia e se sentar sobre a inamovível taxa, recomendando “cautela, parcimônia, paciência e serenidade”. Faltou apenas Boldo. Chá perfeito para tanto amargor.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 23.06.2023

Nenhum comentário:

Postar um comentário