Intimidade e desinformação
Cláudio Pimentel
Há um ditado popular que diz: intimidade só gera filhos, problemas e sarna para se coçar. Anedotas à parte, vou acrescentar mais um: também gera desinformação. O mundo da comunicação está cheio de equívocos que não há media training que dê jeito. Conserta num primeiro instante, mas a recaída é certa. O “mainstream” seduz e desvirtua. E o jornalismo de TV é o ambiente perfeito para escorregões. Uma recomendação para quem tem o compromisso de enfrentar microfones: evite mostrar intimidade com repórteres quando estiver no ar. Mostre jovialidade e interesse. Seja comedido nos gestos. Controle as expressões faciais – cacoetes, sorrisos ou piscadelas. Domine o assunto e guie-se pelo conhecimento. Não improvise. Seja firme nas falas e ágil no raciocínio. Suas armas são objetividade e coesão.
Depois das redes sociais, os jornais de TV, sobretudo os regionais, ampliaram o tempo de duração, tornaram-se ao vivo e passaram a repetir várias vezes a mesma notícia dentro da mesma edição. É como se construíssem a notícia em capítulos. Muitos dos entrevistados, então, passam a viver minutos a mais no ar; são convidados a permanecerem a cada novo “flash”. E é aí que mora o perigo: viram vítimas do deslumbramento. Passam a tratar o repórter pelo primeiro nome, cumprimentam os âncoras e os telespectadores, lembram entrevistas anteriores e esquecem que são meras fontes, cuja missão, informar, ficou em segundo plano. A cumplicidade percebida acaba por depreciar a notícia, que ganha ares de armação. Quando envolve agentes públicos, então, a sensação é de maracutaia.
Não é essa a função de executivos, autoridades ou agentes públicos quando requisitados para explicar algo difícil e delicado à comunidade. Os próprios jornais deveriam se proteger dessa aproximação, mas a alimentam, mesmo que involuntariamente. Só quem não usa seus dez por cento da cabeça animal dão alguma credibilidade às essas entrevistas, que fazem suas fontes correrem o risco de serem desmoralizadas por alguma gafe ou explosão de fúria diante de uma pergunta mais dura. Afinal, repórter que é repórter não está ali para passar pano-molhado sobre algo não esclarecido. As notícias não são felizes. A felicidade está nas novelas. Até presidentes se deixam enganar pela intimidade com repórteres. E falam o que não devem.
Um outro exemplo de intimidade que deve ser evitado é o entrevistado ser surpreendido por uma indagação e afirmar de súbito: “Muito boa sua pergunta, fulano!”. A exclamação já virou um cacoete do “não sei”, quase um clássico do “por essa eu não esperava”, repetida, na maioria das vezes, por políticos ou economistas, quando levados às cordas. Ser surpreendido por um jornalista durante uma entrevista é regra do jogo e, por isso, a fonte deve estar preparada para responder a tudo. O inesperado, porém, paira. Quando ocorrer, não se mexa, respire normalmente e ganhe tempo. Puxe algum assunto relativo à entrevista e, em seguida, dê a resposta, se a tiver. Se não, assuma: “Não tenho a resposta agora, mas posso providenciá-la daqui a instantes”, e siga em frente. Melhor a franqueza do que a pecha de Rolando Lero.
O melhor porta-voz é aquele que reúne humildade e preparo. Assim, a chance de errar é mínima. Desde que o jornalismo é jornalismo, a capacidade dos jornalistas em verem o que ninguém vê é mágico. São capazes de ler a alma de quem entrevistam. E, quando digo isso, refiro-me ao jornalismo profissional e não ao que criaram nas redes sociais ou nos segmentos de imprensa que replicam a ideologia fascista de extrema-direita. Dicas de atendimento à imprensa existem aos milhares e poucas se encaixam nesse universo. As citadas aqui não têm essa pretensão. Nem mesmo de formarem mitos. A história, porém, mostra o contrário. Luís XIV, o Rei Sol, foi um case de sucesso. Representa o esforço de uma época para construir uma opinião generalizada de que ele era o melhor monarca. O absolutismo contribuiu para tanto. Na democracia, isto é impossível. Saber lidar com ela, sem malabarismos e bravatas, é uma forma de protegê-la. O esforço de nossa época seria o de construir uma opinião generalizada de que a democracia é o melhor regime. E nem precisaria de Versailles.
Cláudio Pimentel é jornalista.
Tribuna da Bahia – 26.05.2023
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