Sorry periferia
Cláudio Pimentel
De uma geração a outra, a prática do jornalismo dá saltos que desafiam a compreensão. Em épocas, como agora, em que a interpretação do fato passou a ser a notícia e não mais o fato em si, fica difícil decifrar o que houve. O mundo teria perdido a cabeça? Talvez. O fútil ganhou status. Tudo é fato: poste, dancinha, opinião... E seus responsáveis, é claro! Promessas para desvendar segredos de bastidores e cobrar culpados são convites ao telespectador. Ecoam de vozes vibrantes, ansiosas em alimentar a letargia geral. A notícia vira um ensaio que não se materializa. Abdica-se de informar para propagandear. O veículo é a notícia.
Um documentário, em exibição no Canal Brasil, “Ademã – A vida e as notas de Ibrahim Sued” (2022), ajuda a entender o fenômeno por trás do jornalismo. Dirigido e produzido pela filha Isabel Sued Perrin, o filme é uma homenagem sem paparicos ao jornalista, que militou durante 45 anos no colunismo social. A película foi a forma que encontrou para achar uma definição que a levasse a entender o pai. Se conseguiu, não sei, mas oferece um material riquíssimo para que encontremos uma definição para ele, um personagem multifacetado, que usava, com a mesma graça, uma camisa aberta, com cordões de ouro pendurados no pescoço ou um black-tie. A nossa lista de definições só não seria maior que o Dicionário.
Sued, que lido de trás para frente é deus, é a pessoa certa, gentil e sedutora, no lugar certo, um Brasil que queria ser moderno, na hora certa, anos 1950/60, onde tudo cheirava a leite de rosas, e com as pessoas certas, uma burguesia que queria se livrar da imagem agrária e escravocrata. Filho de um libanês que veio ao Brasil, formou família e foi embora com uma vedete, Ibrahim se fez sozinho. Usando uma máquina fotográfica, fazia freelancers para jornais cariocas. É dele a icônica foto do governador baiano Octávio Mangabeira beijando a mão do presidente norte-americano Dwight D. Eisenhower, durante evento no Rio, em 1960, a JK. A foto, que sugeria a subserviência brasileira ao poder dos EUA, rodou o mundo.
Alto, magro, queimado de praia e olhos azuis, Sued sofria com o “bullying” praticado por jornalistas. Ele era acusado de não saber escrever e nem ter cultura, mesmo tendo colocado em evidência o colunismo social e a si próprio. Ibrahim era a notícia. Amealhou a amizade de autoridades, empresários e artistas nacionais e internacionais. O costureiro Pierre Cardin o achava lindo. O ator Omar Sharif, um sedutor de atrizes. Enquanto sofria a acidez de máximas como a de que “Deus escreve certo por linhas tortas e Sued escreve errado por linhas certas”, ia somando também máximas que ganharam os leitores, que se misturavam entre as classes A e D: “Para você que fica, ademã”; “Cavalo não desce escada”; “Os cães ladram e a caravana passa”; e “Sorry periferia”, que tinha como alvo jornalistas de “esquerda” que o depreciavam.
O filme mostra também um Brasil esquisito, fechado num clubinho de pessoas ricas, bem afeiçoadas e abertas a novidades, como o Ibrahim, e tão influenciadora quanto ele, um “influencer” de mão cheia. Restritos à zona sul do Rio, entre o glamour do Cassino da Urca e o glamour do Hotel Copacabana Palace, os sócios do clubinho viviam deslumbrados com o fato de terem um colunista que os exibia para o Rio e para o Brasil. Relação predadora? Não sei. O certo é que todos se beneficiavam com a exposição que a coluna auferia. Até o Ibrahim. Delfim Netto, ministro da Fazenda da ditadura, confessa orgulhoso que era fonte dele. Durante os quatro anos de Comunicação, no Rio, jamais se tocou em seu nome na sala de aula. A turma preferia o Zózimo, do JB, que depois o substituiria em “O Globo”. Nada como o tempo para mudar percepções. Comparando ontem e hoje, pouca coisa mudou no jornalismo, pelo menos na forma de fazer. Mudaram apenas os interesses, os personagens, os veículos e os leitores. Ah, as percepções!
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 12.05.2023
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