Faltou o autógrafo do Pelé
Cláudio Pimentel
Um velho e querido amigo, que já nos deixou, criou há alguns anos a máxima de que eu era o Romário das Letras. Dizia isso a todos, amigos, parentes, dele ou meus, e a potenciais clientes que nos procuravam atrás de soluções de comunicação. “Passa a bola, que ele desentorta todo texto prolixo, pesado e confuso com dribles simples e mágicos rumo ao gol”. A maioria, ao ouvi-lo, voltava-se para mim com olhar desconfiado, sobrancelhas arqueadas, e eu devolvia com um sorriso amarelo, rosto rubro, plexo encolhido... Pensava: afago ou exagero? Enfim, o amigo era alguém carinhoso, mas também severo quanto a má escrita. Mercurial até. Eu gostava da comparação, mas me perguntava: “Por que não o Pelé?”
O rei do futebol entrou na minha vida, em 1968, numa semana em que Santos e Corinthians duelariam. O “Timão”, freguês do time do Pelé, era considerado favorito, pois acabara de contratar por uma bagatela o ponta-direita Paulo Borges, do Bangu, do Rio, um novo Garrincha. Para nós, o Santos venceria. Não foi assim. No domingo, aboletado numa rede, ouvi o Paulo Borges arrasar com o “Peixe”, fazendo dois gols e jogadas incríveis. Que pé-frio! Era a primeira vez que acompanhava um jogo pelo rádio. O fanatismo, porém, se ampliou com o milésimo gol, a eleição de melhor jogador da Copa de 1970, no México, e num momento especial com ele, em 1973.
Eu não lembro se estava no auditório do Parque Ibirapuera como jogador da escola que estudava ou se era um dos garotos do time dente-de-leite do CMTC Clube. Lembro que estava ansioso. Pelé era atração da abertura do campeonato e a molecada estava radiante para ver o ídolo. Planejei tudo para conseguir um autógrafo: caderneta escolar e caneta nas mãos; posicionei-me num lugar próximo por onde passaria; e fiquei postado junto a uma pilastra, que impediria o “empurra-empurra” de me arrastar quando ele entrasse. Deu tudo certo, nada me moveu, mas a enxurrada em torno do Rei jogou minha caneta para longe e as únicas coisas que pude fazer foi passar a mão em seu braço e constatar que ele não era tão alto quanto achava. Passou de passagem!
A frustração balançou minhas redes. Um ano depois mudei-me para o Rio e a distância e a maturidade foram me afastando daquela idolatria. O olhar sobre o ídolo mudou. A paixão se foi. O mito continuou vítima do maniqueísmo besta: bom ou mau. Preferi ficar distante. Hoje quando vejo, após sua morte em dezembro do ano passado, o movimento para torná-lo especial, fico contente. Foi um gol de placa a ideia de tornar o adjetivo “pelé” num verbete do Dicionário Michaelis, oficializado em abril deste ano. A definição: “pelé (...) é aquele que é fora do comum, que ou quem em virtude de sua qualidade, valor ou superioridade não pode ser igualado a nada ou a ninguém (...), excepcional, incomparável, único. Ela é a pelé da dramaturgia brasileira”, diz o texto.
Fora do campo, porém, é possível que Pelé não tenha sido o mesmo Pelé dos gramados, mas alguém com a tibieza dos pernas-de-pau. Tratava a marca Pelé, mais famosa que a da Coca-Cola, com certa ingenuidade. Dizia que não namorava mulheres casadas e nem virgens. Classificava-se como alguém de centro, que achava Paulo Maluf a grande solução para o país. Agia como qualquer ser humano, contraditório e pouco crítico. Pelé não deve ser lembrado por isso. Deve ser lembrado pelo motivo de não disputar a Copa de 1974: a ditadura, que se beneficiava disso escondendo que havia perseguições, tortura, sequestros e assassinatos no país. Ele deve ser lembrado pelos orfanatos que cuidou; pela quantidade de visitas que fez a crianças desenganadas; por ter feito uma música em homenagem a Chico Buarque, Gil, Caetano e Geraldo Vandré, agradecendo a luta deles contra a ditadura; e, finalmente, por ele ter sido apenas um rei, Pelé, o Incomparável. Pois é, Romário, portanto, já está bom demais para quem apenas desentorta palavras...
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 28.04.2023
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