O destino numa caixa de chocolates
Cláudio Pimentel
Forrest Gump (1994), do diretor Robert Zemeckis e estrelado por Tom Hanks, vai fazer 30 anos. Metade da minha vida. Observando a TV paga ou as plataformas “streaming”, ora o filme é exibido quase diariamente em horários diversos nos mais variados canais, ora compõe a lista de opções disponíveis 24 horas ao assinante digital. Um fenômeno. Três décadas depois, a película mantém seu frescor, o apelo do personagem e é visto e revisto por novas e velhas gerações. Eu o vi dezenas de vezes. Ri e chorei. Quando lançado, faturou mais de 600 milhões de dólares. E ganhou seis Oscars, incluindo os três principais: melhor filme, diretor e ator, Hanks, que ainda nem era o astro que é hoje. Eu, à época, adorei. A crítica odiou. Fiquei com a pulga atrás da orelha.
O roteiro do filme é uma adaptação do livro, de mesmo nome, do escritor norte-americano Winston Groom. O romance foi lançado em 1986 – já tem 37 anos - e, apesar da boa tiragem de 30 mil, só emplacou, mesmo, em 1995, vendendo, graças ao filme, quase 1,5 milhão de exemplares. O sucesso gerou dois outros livros tratando de Forrest e de toda a história em torno dele – virou um negócio da China. O filme, porém, é muito diferente do livro, o que nos faz entender o mau-humor dos críticos e o motivo do sucesso popular do filme: não exigia reflexões complexas. O livro exige. Para os analistas, o filme diminui a dimensão crítica da novela, privilegiando, em seu lugar, a inovação técnica do cinema, como colocar o personagem em cenas reais do passado ao lado de Kennedy, John Lennon e outros.
No livro, Forrest não é o bobo ou idiota bonzinho e preocupado em praticar boas ações como no filme. Forrest tem dois metros de altura, debocha das instituições norte-americanas, “até um bobo é capaz de ver o quanto são maldosas”, tem espírito crítico e até curte uma bebida, um cigarro e alguma droga. O amor que dedica à mãe ou à eterna namorada, Jenny, é idêntica a de qualquer macho alfa, com infecções bolsonaristas. No filme, ele era virgem quando casou com Jenny. No livro, teve experiências anteriores. O Forrest do livro é igual ao bobo da corte, sabe a hora de ferroar. É o bobo fazendo-se de bobo. No filme, o bobo não faz nada que possar ferir o sentimento de alguém. O bobo do livro ri das coisas. O do filme deixa que os outros riam dele. É o bobo em toda a sua essência.
O filme cai como luva no gosto das gerações atuais, impregnadas por filmes de super-heróis, do tipo porrada, tiro e bomba. Pensar é algo remoto e incômodo como muriçoca zunindo. Não vejo assim com tanta severidade, mas os críticos, sobretudo os norte-americanos, implicaram com o filme porque desidratou a violenta e longa história norte-americana – de assassinatos de presidentes e ídolos, como Lennon -, tornando tudo normal. A guerra do Vietnã, para Forrest, que esteve lá nas trincheiras e virou herói, parecia um acampamento de verão. Foi como jogar tênis de mesa na China ou futebol americano na faculdade. Não havia valor que diferenciasse um evento do outro – valor era ser bonzinho e ser recompensado por isso. O Vietnã foi uma tragédia estúpida, como toda guerra. Ao lado de Lennon, num “Talk Show”, a China era um lugar onde as pessoas não tinham religião, não tinham posses, enfim, não tinham nada, ou seja, normal.
Hoje, Forrest Gump vai além do “vale à pena ver de novo”. Atende um desejo das gerações mais novas que querem rir sem pensar. Querem rir de você. O humor inglês virou um porre com seus trocadilhos e “nonsenses”. O humor tem que ser físico. O tombo faz rir. Puxar a cadeira é engraçado. Tapa na cara é o humor em estado puro. A sutileza é um esnobismo dos “inteligentes”. Até os programas de esportes entraram na onda do pastelão. O que vale não é a surpresa de uma situação inesperada, mas o grito, os pulos, a careta, a gargalhada sem que nada tenha sido dito. Não se ri mais de algo. Ri-se da própria micagem. Ri-se da desgraça de alguém. Ri-se por rir. Babando, de preferência. Um escorregão, um esporro, um empurrão. Forrest aprendeu com a mãe que a vida é como uma caixa de chocolates, a gente nunca sabe o que vai encontrar. Isto basta. A vida tornou-se assim. Um pensar em nada o tempo todo.
Cláudio Pimentel é jornalista.
Ócio Recreativo – 21.04.2023
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