Por dentro de nada
Cláudio Pimentel
"A ética é a estética do futuro" - Jean-Luc Godard
A proposta de criar uma “moeda” comum entre os países do Mercosul, para evitar o dólar nas transações do bloco, ganhou força noutro poderoso grupo: o Brics, formado pela África do Sul, Brasil, China, Índia e Rússia. Ideia do presidente Lula, anunciada pela primeira vez quando esteve na Argentina, foi sugerida, por ele, durante visita à China, nesta semana. “Por que atrelar nossas transações ao dólar?”, desafiou, em meio ao alarido de vozes e aplausos que ecoavam à medida que falava. Os Estados Unidos calaram-se. As duas pedradas podem derrubar Golias ou colocar Davi naquele hall de “paisinhos” inimigos dos americanos, como já são – alguns por debaixo do pano - China, Coreia do Norte, Cuba, Índia, Irã, Rússia...
Também pudera, além de enfraquecer o dólar mundialmente como referência e reduzir os custos de países emergentes em transações internacionais, a proposta brasileira amplia o desconforto dos EUA, que já se vê obrigado a explicar a fragilidade dos embargos – considerados os mais severos da história – que impôs, em parceria com Europa e OTAN, à Rússia por invadir a Ucrânia. Em meio ao fogo cruzado e desconfiado de que esse fracasso tem dedos indianos, chineses e iranianos, que estariam franqueando soluções econômicas e militares à Rússia, os americanos podem estar diante de uma surpreendente rebelião no xadrez geoeconômico, onde o Brasil deixa de ser um peão para tornar-se uma peça poderosa, daquelas que, igual à pedra, incomodam até no sapato mais confortável.
Considerando que os poetas desdenhem que a sorte é uma amante fugaz e os filósofos advirtam que o universo foi criado sem maquete e jogado à sua própria sorte, uma pergunta: o que ocorre neste século já tão causticado pelo crash financeiro de 2008; pela ascensão do fascismo, com Trump; pela pandemia do Covid; pela guerra entre Rússia e Ucrânia; pelo colapso ambiental, suas enchentes, nevascas e altas temperaturas; e pelo novo conflito Ocidente - Oriente? Falta de sorte ou acidentes que mudam o mundo a cada época? Faltam respostas. Sinto o tsunami de intolerância como causa, mas não há como descrevê-lo. As palavras brigaram comigo. Negam-se a percorrer o caminho da razão. Impedem-me de sair da banalidade. Eu e meus olhos de porcelana.
Em todos os séculos, antes e depois de Cristo, tivemos guerras. E à medida que evoluímos, involuímos quando se trata delas, que ficam mais sofisticadas, tecnológicas e mortíferas. Deve ser uma das únicas áreas em que evolução significa regressão. Ou teriam outras? Ouvi na rádio: “O bebê morreu por ausência de ambulância.” Não era sua função. Ora, se não é para salvar vidas, para que existe ambulância? E vi na TV: “Aqui não damos apenas notícias sobre violência; não queremos dar isso, mas temos que dar. É uma realidade, nossa realidade. Nós também damos boas notícias, como essas “dez vagas” de emprego como “bucha de canhão”. Aqui ninguém fica sem emprego.” De advogado, médico e engenheiro, que são boas colocações, nunca têm. O faturamento, porém, se delicia.
A rádio e a TV – e redes sociais – estão sendo produzidas para multidões que não pensam; que não dominam uma frase, quiçá um período, metáfora ou entrelinha. Não há espaço. São movidos à morbidez, ao desejo fácil. O voyeurismo comanda. A gente empurra a saudade, mas ela não sai do lugar. O passado estará sempre presente na imaginação. Era melhor! Considero-me um pacifista radical, que busca a simplicidade das coisas. Porém, não é tão simples, ser simples. Os fanáticos não sentem vergonha. Nós sentimos. E a pressão é uma escolha. Não há como abdicar de momentos melhores, de pensar, criar e revolucionar, mesmo que a realidade seja descolorida como a de um desastre que se avizinhe por todos os lados que se olhe... com porcelana.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 14.04.2023
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