sexta-feira, 7 de abril de 2023

crônicas

As viagens do autor

Cláudio Pimentel

         Se o escritor irlandês Jonathan Swift (1667-1745) tivesse o dom de voltar à vida, ficaria frustrado ao saber que “As viagens de Gulliver” é visto mais como um livro para crianças. Não era sua intenção. Lançada em 1726, a aventura traz uma crítica corrosiva à inutilidade e ao ridículo das ações do ser humano, mostrando a visão de mundo de um homem que ora é gigante, ora pigmeu. Uma sátira demolidora e atualíssima que arrebatou várias gerações desde os primeiros exemplares. George Orwell leu antes de completar oito anos! Foi o “Harry Porter” da molecada dos séculos XIX e XX, mas com uma diferença e uma constatação: o livro é um clássico da literatura mundial; e as crianças, seres que enxergam longe. Portanto, não se chateie, Swift. Elas são mais sensíveis do que nós.

         Percebe-se uma sociedade doente quando deixa de cuidar de suas crianças. O Brasil é pródigo no assunto. Pelé acendeu o alerta no dia em que fez seu milésimo gol. Debocharam dele. Antes, Jorge Amado já havia feito o mesmo com o sensível e brilhante “Capitães de areia”. As crianças sofrem desde Herodes, que mandou matar dezenas delas, com menos de dois anos, temendo aquele que o destronaria. Aliás, a mente doentia do rei Judeu, explica muito desse ódio contra “los niños”. Recentemente dois líderes malucos repetiram a dose: Putin sequestrou crianças ucranianas para reeducação na Rússia; e Trump separou dezenas delas dos pais latinos que tentavam entrar nos EUA. Até hoje há filhos e pais que jamais voltaram a se encontrar. Elas não merecem. A criança é como uma oração.

         O atentado ocorrido numa creche em Santa Catarina, mais um de uma série que vem crescendo em escolas do país, é o mais estúpido. Trata-se de uma tragédia de dimensões atômicas. Os simbolismos são muitos. Não só pelas vítimas, indefesas crianças de quatro anos, como pelo seu algoz, um arruaceiro perigoso, já classificado de psicopata e, pelas autoridades locais, inocentado de pertencer a grupos de ódio que habitam o universo das redes sociais, espalhando Fake News contra vacinas, contra comunistas, contra crianças. Quem são? É preciso descobrir. O secretário da segurança catarinense frisou mais de uma vez que o atentado era um fato isolado. Isolado de quem? Das “bolhas” na internet que apoiaram e apoiam cegamente o ex-presidente Jair Bolsonaro?

         Santa Catarina é chave para entender a propagação do ódio. É o mais fiel, pelo menos em termos de votos, ao ex-presidente que sequer se comoveu com o fato, mantendo-se novamente em silêncio quando o tema é amor, compaixão – a Páscoa deve ser uma data desconfortável para ele. O governador pertence ao seu partido, o PL, e o prefeito de Blumenau, é aliado. Ambos foram diligentes em confortar familiares, prometendo revolver o mundo. É pouco. Eles foram eleitos pelo ódio. O problema está aí. Blumenau deu 75% de seus votos ao ex-presidente Bolsonaro.

É fácil associar o crime da creche ao clima de ódio que imperou no país nos últimos quatro anos, mas mais fácil ainda é ignorar o que o ódio é capaz de fazer à cabeça de psicopatas como o autor do crime, que tem 25 anos. Uma besta fera, como muitos que envergam a camisa amarelinha. Afirmar que o atentado foi um fato isolado antes mesmo da investigação, é jogar uma cortina de fumaça na paisagem ensanguentada. O país conviveu quatro anos com essa cortina. A benevolência da imprensa, dos partidos, das instituições e, especialmente, dos empresários e suas federações, fez muito mal ao país. Onde estávamos quando o presidente fazia o gesto da arminha? Ou, então, como foi que reagimos quanto ele, no auge do Covid, retirou a máscara de uma criança que estava em seu colo, num palanque aglomerado de políticos? O pai da criança deveria ter sido interpelado pelos Conselho e Juizado de Menores.

O atentado em Blumenau é mais do que uma lição. É um alerta de dimensões vulcânicas. O país está doente. Quem destila ódio, seguramente agora vai intensificar a campanha. A oposição vai desestabilizar o país, usando a violência para isso. Poder tem. Hoje, vemos dois canais de TV, a Pan e a CNN, claramente a favor, respectivamente, das teses da extrema direita e da direita, em nosso país. Seus “tribunaiszinhos” com debatedores do “contra” e do “a favor” são vazios, irrelevantes. Tentam mostrar uma imparcialidade que não existe. É fake. O Brasil vive um iluminismo pessimista. Temos tudo para levar o país a outro patamar, mas versões ou caminhos diferentes se impõem. O problema é como fazer: reativando a escravatura, como quer esse pessoal do conservadorismo, ou abolindo-a de vez, como querem os progressistas? Na Revolução Francesa, os progressistas venceram.

Cláudio Pimentel é jornalista

Ócio Recreativo – 07.04.2023

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