sexta-feira, 31 de março de 2023

crônicas

Alienado e nada mais

Claudio Pimentel

         Estudei numa época em que ser chamado de alienado era pior do que ser xingado de filho da... Bem, estávamos nas décadas de 70 e 80 do século passado, quando a informação engajada era o principal quesito para distingui-lo como cidadão atento às vicissitudes de um país assustado com a existência de esquadrões da morte, tortura de pessoas, alcaguetes nos observando e canhões nas ruas. Enquanto a maioria, literalmente, se engalfinhava atrás das raras figurinhas dos álbuns da Disney, eu lia jornais alternativos em busca de relatos sobre a ação de grupos como “Baader-Meinholf”, “Tupamaro” e “Sendero Luminoso”, o nome mais bonito entre todos eles, e ficava esperançoso em saber do Brasil. Mas a censura não deixava.

         Minha mãe tinha um nome para isso: palerma. Eu não gostava, mas hoje até admito: ela estava correta. Não de todo, mas estava. Os grupos guerrilheiros, inebriados com a leitura errática que faziam do marxismo, maoísmo e outros métodos que analisavam o mundo, propunham destruir o capitalismo que, assim como hoje, financiava o fascismo – haja “ismos”! Para tanto, partiam para a luta armada, engendrando sequestros, deflagrando atentados e mobilizando pessoas com os artifícios fascistas para derrotar o fascismo. Seria trocar seis por meia dúzia. Só um palerma não via! Passei semanas de luto ao saber que a jornalista Ulrick Meinhof e o ativista Andreas Baader, da “Fração do Exército Vermelho”, foram encontrados mortos em suas celas, cujas luzes jamais eram apagadas.

         Hoje mudei. E ando interessado em reivindicar meu direito inalienável de ser alienado. O alienado tornou-se “must”, com direito a “likes” e mais “likes” nas redes sociais. Algo que venho conquistando a duras penas. Se me pedirem para enumerar a programação da TV, não saberia nem por onde começar. Sobre o BBB, então... seria mais fácil acreditar que o Banco do Brasil ganhou mais um B, de Bilhão. A alienação é assim... “não quero saber...” Nunca ouvi uma única música dos ricos e famosos cantores de sertanejo universitário, cujo desempenho em negociar contratos com prefeituras do país tem rimas mais afinadas que as letras das canções. São hábeis como políticos que fazem “rachadinhas” e são seus fãs.

Ser alienado é evitar dores de consciência e de cabeça. Aliás, para que tê-las? Melhor não, assim como os alienados não têm. Quero ser moderno. Desses que mandam “zaps” para jornais de TV, concordando com tudo que o apresentador diz. Paulo Francis classificava de maluco quem mandava cartas aos jornais. Como classificar agora? Assistir os telejornais virou expiação. É tanto adjetivo, superlativo, interjeição, pieguismo e gíria! Não há como não se condoer com a miséria de vida das pessoas que são exibidas; e nem deixar de se condoer ainda com a pobreza vocabular de quem as exibem: é um tal de “aí”, “né”, “super”, “incrível”, “por conta”, “pai”, “família” “infelizmente” e “graças a Deus”. Uma riqueza! Ou será pobreza? Se rolar um “The End" feliz, então, no fim da notícia, Deus é o fato! Mas erram no “Lead”.

Queria me solidarizar com o senador Moro, alvo de pretensas ações heterodoxas do crime organizado, e jamais duvidar de sua índole, até porque não esqueci seus passos ao longo da surpreendente carreira de sucesso como juiz, tirando um presidenciável da eleição. Queria também me solidarizar com o ex-presidente Bolsonaro, assediado pela também surpreendente aparição das malditas joias sauditas. Duas pessoas do bem, como todo alienado sabe. E, para provar meu processo de alienar-me, quero repreender, em nome de Jesus, o presidente Lula. Por que atribuir o termo armação nos dois episódios? O que eles fizeram ao senhor? Ficar preso mais de 500 dias não foi suficiente? Da próxima vez, lembre a todos que está fazendo política. Uma arte que fala para poucos. Que usa e abusa das entrelinhas. E na maioria das vezes acerta, mas dispensável, quando se improvisa. Geram armações do contra. E alienar-se voluntariamente é quase a mesma coisa, uma armação, como toda armação, seja aqui, em Curitiba ou nas arábias. Sempre tem algo mais. Tchan!

Cláudio Pimentel é jornalista.

Tribuna da Bahia – 31.03.2023

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