Retalhos de fantasias
Cláudio Pimentel
Existem dias em que estamos propensos a pedalar uma bicicleta até a China. Noutros, sucumbimos ao recordar a primeira vez em que amarramos os sapatos. Retalhos de fantasias. São elas que nos mantêm respirando nesse vai e vem que se tornou o futuro: fictício e hostil. É resistência e melancolia na mesma moeda. Como nós, um dólar furado. Cinquenta anos depois, segue intacta, em mim, a imagem de um menino que não sabia amarrar os sapatos – assim pensei. Tive pena. Eu tinha 14 anos e ele uns 16. Estava em pé, sobre um banco e, ajoelhado diante dele, um homem amarrava suas chuteiras. Parecia um príncipe. Estávamos todos no vestiário de um estádio, acho que do Parque Ibirapuera, onde jogaríamos futebol.
O garoto vestia branco e seu uniforme diferia dos demais companheiros: o calção tinha um cintinho ao invés do tradicional cordão. Ele pertencia a um colégio de classe média alta, provavelmente dos Jardins, e trazia nas costas o número 10, de craque. Eu era de uma escola da periferia, “sertão” da zona norte da capital paulista, trajava vermelho e envergava também o número dez. Porém, sem glamour ou valete. A cena me hipnotizou. E só se quebrou quando, com simpatia, me perguntou se a torcida que fazia barulho na arquibancada era nossa. Confirmei e ele reagiu: “Que legal! Não veio ninguém da nossa escola para o jogo”. Desejou sorte e saiu. Um príncipe sem súditos. Descobri aí a diferença entre o andar de cima e o debaixo.
Em o “Principe”, Maquiavel usou Cesare Borgia, o duque Valentino, como modelo de príncipe ideal. Escolheu baseado no que fez para amealhar um poder semelhante ao do pai, Papa Alexandre VI, um dos mais corruptos na longa e sombria história da Igreja. Cesare não gostava de guerras como seus homônimos imperadores romanos, mas, sim, de controlar monarquias, clero e chefes militares por meio de serviços de inteligência. A Itália estava subjugada a seus dossiês. Por outro lado, temos príncipes que primam pela inaptidão, mas chegam ao poder. É o caso do rei Luís XVI, da França, deposto na Revolução Francesa. Oriundo de uma linhagem que tem Luís XIV, o rei Sol, inventor da França luxuosa e multicultural, sua principal vocação era caçar, a qual praticava a maior parte do tempo com amigos da corte. Maria Antonieta sequer o via.
E é no fenômeno do “príncipe” que não tem vocação para ser rei, e nem mesmo príncipe, que há décadas se equilibra o destino do mundo, seja nas grandes ou pequenas obras, causas ou decisões. Estamos no século XXI e ainda é possível encontrar engenheiros que constroem ônibus sem nunca terem viajado em um desses veículos quando era criança, adolescente ou adulto. Quem sofre somos nós. Trago o exemplo para servir de modelo em outras categorias. O grande ator não necessariamente vai gerar outro grande ator, mas o filho vai se tornar um, mesmo que medíocre. A equação serve para o craque de futebol, o político sagaz, o cirurgião preciso e outros mais que garantem posições na sociedade e no mercado graças apenas ao “pedigree”. Basta olhar com atenção.
Nas últimas semanas, temos assistidos sobressaltados os seguidos casos de exploração de pessoas submetidas a condições de trabalho análogas à escravidão. Uma avalanche que se repete 134 anos depois da abolição da escravatura. Mais casos, seguramente, serão encontrados, maculando ainda mais a fama do Brasil de país que não tem apreço pelos mais necessitados. Estarrecedor. Mas não tanto quanto a ausência de políticas efetivas para resgatar a dignidade de pessoas submetidas a condições de moradia análogas à da época da escravidão em centenas de cidades no país. Realidade que se repete, anos após anos, sob o olhar míope de prefeitos e vereadores em busca de votos, e que só aparece no noticiário para elevar a audiência das TVs em períodos de tragédias anunciadas, como desabamentos, endemias, confrontos entre traficantes e operações policiais. Temos príncipes que não estão nus e nem têm retalhos de fantasias. São indiferentes.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 24.03.2023
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