Pra que fazer isso?
Cláudio Pimentel
Se eu soubesse dançar, faria como os índios, dançaria para a chuva. Não para atender urgências climáticas, a bola midiática e mundial da vez, mas pela beleza que sugere à paisagem, na maioria das vezes expostas como borrões empoeirados e confusos na aldeia urbana. Modernismo sem imaginação... Woody Allen fez dois filmes para mostrar a magia que a chuva, ao cair, causa aos meus, seus e nossos sentimentos. “Meia noite em Paris” e “Um dia de chuva em Nova York” encantam. Não há quem não deseje estar ali saboreando pingos, jogos íntimos, emoções e o visual. A chuva purifica, molha a alma, umedece os sentidos. E, inebriante, livra-nos da maldade e da intolerância. A criança sabe. É quando o adulto volta a ser menino ou menina. Passei horas na chuva de ontem.
É uma pena que a ideia de imortalidade vá embora com a juventude. E o mais penoso é que nenhum fenômeno climático, como a chuva, por mais poético que seja, trará ela de volta. O episódio da universitária de 40 anos hostilizada, em Bauru, por alunas de 20, num vídeo preconceituoso, no Youtube, é o ápice da babaquice caipira e conservadora dos desinstruídos, que ainda sobrevivem em todos os “chiqueirinhos” do país. As beldades, se imaginando lindas e sagazes como Lindsay Lohan e Rachel McAdams, do icônico “As Meninas Malvadas” (2004), não entenderam que as vilãs eram exatamente as bonitinhas, riquinhas e consumistas que imitaram. Uma piada! Tornaram-se exemplos de “cidadãs de bem” que se apegam a um país escravocrata, preconceituoso e ignorante, que teima em não morrer.
“O sonho não acabou”, disse a vítima de etarismo, lembrando John Lennon, um raro e intenso defensor dos que sofrem com o racismo e a exclusão social. Para ele, o nosso compromisso é com o belo e não com a eficiência das máquinas, o que certas instituições querem nos vender e impor. Entende-se por máquina ter um diploma, um canudo de não sei o quê. Somos um país de pessoas que têm diplomas, mas poucos têm instrução. E quem for humilde e tenta tirar, acaba sacrificado. Os cursos que não adotam disciplinas de humanas, como talvez seja o caso em “Biomedicina”, onde se deu o fato, incorrem num erro: negar aos estudantes o conhecimento sobre literatura, filosofia e história, basilares para o entendimento da sociedade e para a construção de relações sadias e criativas.
Em 1979, desiludido com o curso de Comunicação, no qual havia entrado um ano antes, entrei, aos 19 anos, para Filosofia na UERJ, no Rio de Janeiro. Foi um choque. Como eu era imaturo! Fui parar lá graças a um professor de “Semântica e Semiótica”, que, na faculdade de Comunicação, passou um ano ensinando Aristóteles, no primeiro semestre, e Semana de Arte Moderna e Tropicalismo, no segundo. Ele casou tudo e nos deixou extasiados, inspirados. Ninguém piava em aula. A poética de Aristóteles, algo impensável para a época em que o autor viveu, me dominou. Em Filosofia não foi assim. Era diferente: formal, abstrato e profuuundo... Os alunos tinham 30, 40, 50 anos. Um tinha mais de 60. Houve bullying? Não, eram da turma. E só.
História edificante: mulher negra, obesa e analfabeta decide, aos 50 anos, tirar carteira de habilitação. Comenta com amigos e parentes. Todos perguntam: pra que fazer isso? Ignora. Planeja cada passo. Primeiro, alfabetizar-se e tirar o diploma de segundo grau. Em seguida, procurar empregos melhores que o de doméstica. O demolidor “pra que fazer isso?” não silenciava. Decide fazer cirurgia bariátrica. Muda para um bairro central. As mudanças trazem resultados. Assume chefia numa empresa de serviços gerais. Finalmente vai em busca da Habilitação. “Pra que fazer isso?”, ouve pela enésima vez: “Você não tem carro”, provocam. Tirou o documento. Meses depois, o filho compra um carro e dirige o veículo duas vezes. E é provocada: “Por que não dirige mais?”. “Porque eu só queria a habilitação”. As causas perdidas são as únicas que valem a pena lutar.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 17.03.2023
Nenhum comentário:
Postar um comentário