A palo seco
Cláudio Pimentel
Sofro do mesmo mal que acomete os alemães: cultivo minhocas de ouvido. Descobri o fenômeno graças a uma amiga que, afinada ao mundo germânico, me elucidou sobre o fato de ouvir repetidas vezes e em sequência a mesma música na cabeça. A culpa é das minhocas. E pior: elas gostam de propor apenas sons e ritmos que o hospedeiro detesta. Os alemães as identificaram, conquistando um convívio menos árido. Eu não. A relação é irritante. Invisíveis, não sei como são fisicamente. Recuso-me a imaginar aquelas do anzol. Sei somente que existem como fantasmas atazanando meu juízo. Ficam dias, semanas, meses até sumidas, mas, de repente, surgem como poderosos paredões, no meio da noite. Foi o que aconteceu nesta semana até tocar “A palo seco”, de Belchior.
A canção foi o hino da minha juventude. Tinha amigos que elegeram “Canteiros”, de Fagner; outros, “Pavão Misterioso”, de Ednardo. Só eu colei na “Palo”. Tudo aconteceu naquele período em que o país buscava novidades para quebrar a sisudez da ditadura e do conservadorismo provinciano. Belchior caiu como luva. Era o novo. Alguém que falava por nós. Duvido depois de tantos anos que meus amigos mantenham suas preferências. Eu mantenho. Considerando o cotidiano desses 40 anos, “A palo seco” segue atual e sedutora, conversando com a alma, beliscando o coração. As minhocas me surpreenderam; me deram um presente, mesmo considerando que a música já se repetia às dezenas. Já estava difícil ouvir “Se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava...”
A expressão “palo seco” é espanhola e significa “franco, direto, sem rodeios”. Ela dá título a um poema de João Cabral de Melo Neto. E mais direta que ela é difícil encontrar. Belchior denunciava os tempos sombrios da América Latina, sua história, seu povo sofrido, oprimido por ditaduras. Tudo numa época onde os jovens, literalmente, se desesperavam diante da falta de perspectivas. Em 1982, quando me formei, todas as redações do Rio de Janeiro estavam dispensando jornalistas. A maioria de esquerda. O país passava por uma grave crise econômica e os empregos, sobretudo de jornalistas, desapareceram. Fiz muitos artigos e teses acadêmicos para terceiros. Era a forma de passar pela chuva.
A canção está ligada a um momento crucial da minha vida, da minha profissão, naqueles anos. E a falta de perspectivas me desesperava. Hoje não é diferente e se relaciona novamente com o jornalismo. Se no início dos anos 1980, a crise nas redações era de ordem econômica e também ideológica, mas em menor intensidade, agora é o modelo de negócio. Os jornais deixaram de pertencer a jornalistas e passaram a ter conglomerados capitalistas como associados. Ou tornaram-se conglomerados, como a Rede Globo, ávidos por investidores e ações em bolsa. Foi uma quebra de paradigma: no passado, a notícia era o fato; hoje é a interpretação do fato. Alguns veículos ideologicamente comprometidos estão impondo essa percepção, que faz da mentira, verdade, como a Fox, nos EUA, e sua cópia, no Brasil.
A imprensa está hoje editorial, ideológica e moralmente numa encruzilhada onde os caminhos levam ao mesmo lugar: a obscuridade. O advento das redes sociais tornou o ambiente tóxico. Seu poder de julgar em instante fato ou versão aniquilou o interesse que jornais e revistas despertavam. A necessidade de mudar para competir tornou os erros, cacoetes e pobreza editorial mais evidentes; a inexperiência de repórteres jovens, para conter salários, também contribui, especialmente, nos jornais das TVs. O livro “Tempestade Perfeita” (2021) voltou às vitrines das livrarias. Ele propõe uma reflexão sobre o futuro do jornalismo, trazendo a visão de sete jornalistas. É uma ação indispensável. Afinal, a “imprensa profissional está para a democracia como a vacina para um planeta ameaçado pela pandemia”, avisa o editor Roberto Feith, na abertura da edição. O caminho será longo, íngreme e áspero. E o tratamento deverá ser franco, direto e sem rodeios. A palo seco.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 10.03.2023
Nenhum comentário:
Postar um comentário