sexta-feira, 3 de março de 2023

crônicas

O banditismo social salva?

Cláudio Pimentel

         A canção “In a Sentimental Mood”, de John Coltrane, ecoava suavemente pela casa, quando encontrei uma relíquia histórica em minha pequena e mágica biblioteca: a previsão para o meu signo, Touro, no dia 24 de setembro de 2011. Que surpresa! Até fingi que era secular para torná-la mais valiosa que uma lembrancinha decenária. Dizia: “Para que as pessoas estejam em paz e concordância coletiva, alguém sempre terá que ceder. Muitas vezes o que importa não é o que fazemos pelo outro, mas sim o que deixamos de fazer. É tempo de compreender os ganhos que temos nestes momentos”. Não era uma previsão, mas um conselho pretensioso. Apesar do tom existencialista, estava mais para “sem pé nem cabeça” - pobre Sartre, o inferno são os outros.

         Já estava me perguntando que ideia tinha sido aquela de guardar uma página de jornal com horóscopo, quando vi, no verso, o real motivo: uma crônica de José Miguel Wisnik, cujo título, “Ler poesia”, já sugeria um universo de constelações e suas formas imaginárias de objetos, animais, criaturas mitológicas, deuses. O músico e ensaísta ressuscitava o poeta Fernando Pessoa, que um dia enumerou quais eram as qualidades necessárias para se ler poesia, seus “símbolos” - a linguagem poética - e entendê-los. São cinco: simpatia, intuição, inteligência, compreensão e graça. Estava tudo numa apresentação que fez para “Mensagem”, o único dos seus livros, publicado quando ainda encontrava-se vivo. Um deleite para quem ama poesia e uma solução, para mim, que pretendia na crônica de hoje fugir de polêmicas.

         O Brasil sempre foi um país de polemistas, mas a maioria de mesa de bar. Poucos exibem algum conteúdo na paixão do debate, que se mantém vivo porque a lógica não é trocar ideias, mas liquidar o adversário, calá-lo. Virou boxe. Paulo Francis era um grande polemista. Caetano Veloso o é. Sábios, eruditos, não alteram a voz diante da provocação. São elegantes, fluentes, destemidos. Enfrentar uma plateia em fúria entoando “é proibido proibir” é para ninjas. A polêmica é filha do ego. O confronto não faz meu estilo, mas não tenho como evitar: por que o ser humano idolatra figuras da história que aguçaram tanto medo e causaram tanta dor como Jesse James, Robin Hood, Pancho Villa e Lampião?

         Os quatro já foram temas de livro, filme e teatro ao longo de cem anos. Só Lampião foi além: virou enredo de escola de samba e, de quebra, deu à Imperatriz Leopoldinense o título de campeã do Carnaval do Rio 2023. Em seu desfile, a “Verde Branco” trouxe uma fábula sobre a morte de Lampião à luz da cultura do cordel, num cenário onde o Nordeste reina multicolorido. Retratou a vida e a morte do jagunço, barrado tanto no céu quanto no inferno. Até a filha dele, Expedita Ferreira Nunes, de 90 anos, desfilou, se emocionou com a vitória e disse: “Eu não vim para perder”. Num país de tanta violência e apatia do estado em combatê-la, certas posturas dão sinais trocados. Ou não?

         Conheço quem vê Lampião como herói. Um Robin Hood pró pobres. Bandido com estrela de mocinho. Meu pai, potiguar, contava sobre o medo de sua família quando ele estava nas proximidades. O historiador Eric Hobsbawm esmiuçou o fenômeno e publicou tudo no livro “Bandidos”, dando origem a um novo campo de pesquisa na história: o banditismo social. Para tanto, estudou apenas aqueles que a opinião pública não considerava como criminosos comuns. Milícias, oligarcas que se tornaram facínoras e bandos de origem urbanas ficaram de fora. O foco era o banditismo e sua história no contexto do poder e do controle de governos e do estado. A fusão explica muito sobre nós. São “heróis” que povoam o folclore e o imaginário popular. O violento Complexo do Alemão, lar da Imperatriz, é o próprio Brasil. Um caldeirão onde Deus e Diabo digladiam-se. Lá pode faltar tudo, estado, horóscopo e até poesia; menos banditismo social. Ele salva.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia - 03.03.2023

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