sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

crônicas

Entreguei ao vento

Cláudio Pimentel

         O avesso da vida não é um mundo paralelo, mas existe. Não o vemos. Apenas sentimos. Se observarmos uma calça, o avesso é o oposto do original, que é o que mostramos quando vestimos. Nós temos um avesso? Se fosse possível fazer com o corpo o que fazemos com uma calça, diria que sim, mas não é. Somos mais que um corpo. Somos vida. Então, qual seria o avesso? A alma? O inconsciente? Um sexto sentido? Se o objetivo da vida é a felicidade, o avesso seria a infelicidade? E se fosse a glória, o fracasso? Não há conexões. Por que, então, ainda apostamos na doença quando é melhor apostar na cura?

         A minha primeira festa de aniversário foi aos dez anos. Se houve outras antes, não registrei. E, dessa, a única coisa que me recordo é de um menino chorando porque não foi convidado. Foram me chamar. E lá estava ele, no portão, inconformado, lágrimas por todos os lados. Pedi que entrasse, mas se negou. Virou as costas e saiu. Fui atrás. Fiquei com ele até se convencer a juntar-se a nós. Ele apostou na doença. Por que agiu assim? Para mim, foi como se algo estivesse do avesso, fora do meu controle. O inesperado, então, seria o avesso da vida? Algo que ocorre sem nosso consentimento, mudando tudo e mostrando que na vida não somos donos de nada?

         O clima no país está serenando. A sensação é de que agora vai dar certo, mas meu ceticismo mira outra dimensão: o avesso. Discurso e realidade não combinam. Estou apostando na doença? Talvez. O inesperado nos ronda. Exemplos: o Brasil, antes de melhorar, vai piorar; não há consenso sobre que país queremos; meio ambiente ou negócios; população ou mercado financeiro. Este último reclama de tudo. Até das esmolas aos pobres. Quer o equilíbrio fiscal e que se dane o equilíbrio social. Seus mecanismos, bolsas, moedas, papéis, oscilam de forma oportuna e marota. Pessimismo e euforia caminham juntos. O horizonte fechou para balanço.

         Ainda sob o impacto da violenta tentativa de golpe deflagrada, em Brasília, por extremistas de direita, a população descobriu que Roraima abrigava um campo de concentração em território Yanomami. No local, só faltou o “Zyklon B”, gás usado, em Auschwitz, para matar judeus, pois corpos famélicos por falta de ação do governo anterior tinham de todos os tamanhos: criança, adolescente, adulto, versões masculino e feminino. Os episódios são alguns dos macabros “aperitivos” de uma “festa” que durou quatro anos e nos deixou chorando no portão. Antes, já tínhamos visto centenas de manauenses, com Covid, morrendo por falta de oxigênio. Houve até quem, diante das câmeras, imitasse a agonia das vítimas.

         A máxima anarquista “Si hay gobierno, soy contra” é muito bem-vinda. Sugere que devemos ser contra qualquer governo, até aquele que ajudamos a eleger. Trata-se da melhor forma de fazê-lo trabalhar e acertar. As esquerdas estão intrigadas com o crescimento da direita e da fúria com que trata adversários, poderes, instituições, imprensa, mas nada fazem para entender o fenômeno e contra-atacar. Preferem a mansidão aliando-se até com o Diabo; são progressistas apenas quando mudam para deixar tudo como está; em troca de apoio, deixam eliminar talentos e profissionais experientes e comprometidos. Acontece todo dia, até na Bahia.

         O “avesso da vida” é o inesperado. Aquilo que muda tudo. Demissão é um exemplo. Ninguém espera e, quando ocorre, é um abalo. Passei por duas. Incompreensíveis, pois estava no meu melhor. O chão desapareceu, assim como a autoestima. Vi acontecer há alguns dias. Sofri com as vítimas. Estou vacinado? Não. Mais calmo com certas coisas que não pedem licença para ocorrer. Prefiro acreditar que toda mudança, que parece o fim do mundo, seja um impulso para coisas melhores. Chega de lamentos. Entreguei ao vento. O avesso pode ser melhor que o original. Espera-se da esquerda o melhor governo da história. Não há espaço para erros... porque és o avesso do avesso do avesso do avesso.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 03.02.2023

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