À espera de uma carta
Cláudio Pimentel
As cartas têm história. São registros de vida: um instante; uma jornada. Atravessam o tempo comunicando, esclarecendo, documentando. Viajam aliviando saudades, reforçando paixões, levando esperanças. Dão broncas e ameaçam, mas consolam e ensinam. Provocam risos. Derramam lágrimas. Alegram e entristecem. Enfurecem e apaziguam. São pétreas como as pedras de Moisés. Ninguém fica indiferente. Muito menos quando atrasam ou sequer chegam. São assim desde que a linguagem é símbolo. Hoje, sobrevivem com elegância à presença digital - e-mails, twitters e zaps carecem de charme. As cartas têm substância. Viram relíquias. Vão além da eternidade.
Não fui fã de cartas como meus amigos. Adorava recebê-las, mas avarento em enviá-las. Pouco respondia. E sem motivos, pois aos 25 anos já tinha vivido em três cidades, deixando muitos deles, todos queridos, pelo caminho. Talvez, alguma influência de casa, onde minha mãe encaminhava cartas para o “mundo”. Não apenas para minha avó e tias, mas para parentes de meu pai e amigos. Chorava quando as recebia e quando as enviava. Mantinha todos conectados via uma folha de papel. Coisa ancestral. Afinal, foi a mulher que inventou a família e inventou também o lar, para colocá-la dentro.
A literatura e o cinema são quem melhor explora a riqueza das cartas. E sempre há uma mulher envolvida. Nos filmes “Ligações Perigosas”, “Cartas para Julieta” e “Central do Brasil” vemos isso. As mulheres dão vida ao enredo e as cartas tornam-se veículos. Glenn Close, Amanda Seyfried e Fernanda Montenegro buscam, através delas, dominar a sedução tóxica da corte, inverter o romantismo inocente dos namorados ou afugentar a amargura endêmica dos trópicos. E, se na ficção, as histórias encantam, o que dizer das reais? “Correspondências - Clarice Lispector”, “Cartas a Nelson Algren – Um amor Transatlântico”, escritas por Simone de Beauvoir, e “Cartas”, de Graciliano Ramos, são pérolas sobre pessoas criativas.
Os famosos não deveriam ser os únicos a ficar na mira de editores por causa de suas correspondências. Imagine o melhor do que já foi endereçado a Deus ou a Papai Noel! E o teor dos bilhetes encontrados em milhares de garrafas jogadas no mar? Um livro, presenteado a mim por um casal muito querido, quase chegou lá: “Cartas Extraordinárias” (2013), organizado por Shaun Usher. É um presente para não esquecer jamais. Esbarrei nele, dia desses. E não resisti, li novamente. É um pequeno museu de cartas. Pura arte de escrever. É como apreciar a Monalisa. Não compartilhar seria egoísmo.
Em 1970, ao assumir a Procuradoria Geral do Alabama (EUA), Bill Baxley reabriu um processo sobre bomba explodida pela Ku Klux Klan, em 1963, numa igreja, causando a morte de quatro jovens negras. Edward R. Fields, fundador da KKK, não gostou e mandou uma carta ameaçadora a Baxley, acusando-o de fazer política barata. O procurador respondeu: “Prezado, dr. Fields, minha resposta (...) é: vá para o inferno”. Um ano depois, um membro da Klan foi preso pelo crime, cumprindo pena até morrer, em 1985.
Charles Darwin, autor do revolucionário “A origem das espécies”, escreveu, em 1844, ao botânico Joseph D. Hooker, missiva na qual aludia sobre uma teoria inovadora que vinha trabalhando e o receio do que ela poderia causar a ele: “Estou quase convencido de que as espécies não são imutáveis. Isso é como confessar um homicídio. Creio que descobri a maneira pela qual as espécies se adaptam a várias finalidades”.
O livro traz 125 cartas exibindo aspectos fortuitos dos autores. É o caso de Martin Luther King que recebeu carta anônima sugerindo que se suicidasse, uma vez que escândalos sexuais manchariam seu nome. A carta foi feita pelo FBI, descobriu-se depois. Tem Mick Jagger orientando Andy Warhol sobre uma capa de disco e pedindo pressa. Einstein assumindo que o maior erro que cometeu na vida foi garantir aos EUA, durante a Segunda Guerra, que era possível fazer a bomba atômica. E Anaís Nin se queixando a um cliente que a pornografia que pedia, em forma de histórias, era doentia e inverossímil. As cartas revelam mais do que se imagina. Mais do que se espera.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 27.01.2023
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