sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

crônicas

O discreto fascínio da política

Cláudio Pimentel

         Quando o septuagenário cineasta espanhol Luís Buñuel filmou “O discreto charme da burguesia” (1972), ele já não demonstrava mais estar furioso com a hipocrisia e futilidade das classes dominantes. Passara a aceitar tal comportamento como aceitamos os miados, rosnados e patetices dos insidiosos animaizinhos de estimação. Estava em paz. Entregou um filme magnífico, descontraído, espirituoso. Saborosa metáfora do poder, seja qual for. Seis amigos, elegantes e amorais, reúnem-se para um jantar agradável, que é adiado a todo instante por eventos reais e imaginários, como ataques terroristas ou aparições fantasmagóricas, misturando sonhos, religião, sexo, política, revolução... Hoje, à mesa, o sexteto teria apenas um tema: democracia. E uma dúvida: defendê-la ou não?

         Sistema em que o povo elege seus representantes pelo voto, a democracia é o melhor meio de conduzir uma sociedade à estabilidade política, econômica e social. E o mais difícil: à luz da Constituição, os cidadãos têm direitos e deveres para com ela e a sociedade; os três poderes cumprem o papel de seu garantidor; e as instituições, de impedir ações para derrubá-la. O diálogo é a via. A liberdade, o objetivo. Desde a Grécia é assim. Absolutismo, comunismo, nazismo e ditaduras vis são afrontas aos valores democráticos. Tem-se hoje uma democracia em xeque. Basta olhar o que ocorre nos EUA e no Brasil. A extrema-direita a renega e prega sua aniquilação.

         A situação mais delicada é a do Brasil, que convive com a agonia de uma tentativa de golpe ainda quente perpetrada por fanáticos da direita extremista e facilitada pela omissão de autoridades. Mesmo tardiamente, porém, o aparato de proteção à democracia funcionou. E Lula agigantou-se. Os EUA experimentaram o mesmo processo e Biden agigantou-se também. Buscam culpados pela afronta, doa a quem doer. Executivo, Legislativo e Judiciário uniram-se nos dois países e correm para firmar presença. A lei está no ar. Proteger a democracia é tarefa espinhosa. E só um líder, que capture o desejo da sociedade, é capaz de carregar essa bandeira. Lula e Biden se esmeram na missão.

         Os políticos se aproveitam da esperança que as pessoas têm de que as utopias são possíveis, como atingir o paraíso na Terra. Se a democracia é o ideal, o caminho será de paz. Mas há quem, aproveitando-se também da esperança, conduza pessoas para o caminho inverso. A persuasão leva ao céu e ao inferno. Requer atenção. Políticos são sedutores profissionais. Se tocarem o coração das pessoas, serão bem sucedidos. Quem melhor se saiu num cenário desses foi Nelson Mandela. Eleito presidente da África do Sul, depois de 27 anos presos, ele conseguiu unir uma nação ressentida, à beira de uma guerra civil. Mandela quebrou a lógica e evitou o pior. Lula e Biden repetem a dose.

         O livro “Conquistando o inimigo”, do jornalista inglês John Carlin, correspondente do “Independent”, descreve um Mandela que abriu mão de revanchismos, como queriam aliados, para pregar a paz e a união com brancos, evitando sacrificar o maior símbolo deles: o “Springboks”, time de “Rugby”. O livro, que virou filme - “Invictus”, de Clint Eastwood - mostra a habilidade de Mandela em convencer seus camaradas a não extinguirem o time e suas cores, como queria seu Conselho de Esporte. O presidente pensava na reconstrução do país e os brancos não podiam ficar de fora. O medíocre “Springboks” superou-se e acabou campeão da “Copa Mundial de Rugby”, em 1995, na África do Sul.

 Mandela fez a transição da tirania à democracia sem dar um grito. Ninguém jamais fez a passagem de forma tão hábil e humana. Ele virou exemplo de perdão. Mostrou o animal humano no seu melhor momento. A sequência de ações virtuosas virou lição duradoura. Biden e Lula não viveram o que Mandela viveu, mas, assim mesmo, o discreto fascínio que gerou os inspira. A postura de ambos diante das invasões do Capitólio e dos Três Poderes podem também deixar lições duradouras. Mandela atraiu todos. Que façamos igual. Extremismo de direita e terrorismo só florescem na inação. A pregação da paz e o exemplo geram mudanças. Mandela ensina: “Não falem para as mentes deles. Falem para seus corações”.

Cláudio Pimentel é jornalista.

Tribuna da Bahia – 20.01.2023

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