sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

crônicas

Entre Piaget e Pinochet

Cláudio Pimentel

         Diz a lenda que um pai brasileiro, preocupado com a educação dos filhos, decidiu visitar escolas para identificar a melhor. Queria uma que provocasse a criatividade dos meninos e inoculasse também as sementinhas da disciplina, uma vez que eram peraltas em demasia. Numa delas, travou o seguinte diálogo: “Soube que aqui o método é construtivista”; “Sim, adotamos Piaget!”; “É suficiente?”; “Como assim?”; “Piaget dá conta da disciplina também?”; “Ah, não! Nesse caso, usamos outro método!”; “E qual é, por favor?”; “Pinochet.”; “Então, matricule os dois, rápido. Quanto é?”

         A piada sempre me vem à cabeça quando vejo vândalos clamando o retorno da ditadura militar. Não sabem o que fazem. Ignoram o tamanho da dor que as ditaduras na América do Sul, nos anos 1960/70/80/90, causaram: torturas, campos de concentração, censura, prisões sem julgamento, execuções sumárias, desaparecimento de civis. Os crimes se tornaram prática comum e os militares agiam como mercenários de grupos econômicos e políticos da extrema-direita norte-americana, que retroalimentam a influência e poder de Washington.

Em 11 de setembro de 2023, um dos golpes mais sangrentos do continente completará 50 anos: o do Chile (1973 – 1980). Depois de 100 anos de democracia, o país viu o general Augusto Pinochet (1915 – 2006), chefe das Forças Armadas, derrubar o presidente Salvador Allende (1908 – 1973), morto durante bombardeio ao Palácio La Moneda, sede do governo. Allende negou render-se e suicidou-se. Foi traído por Pinochet, que agiu a serviço de um consórcio de mineradoras dos EUA, insatisfeito com a nacionalização das minas de cobre. A ação terrorista, em Brasília, tem influência dessa mesma extrema-direita americana, cuja mídia elogia a quebradeira dos três poderes.

         Assim como o ouro brasileiro ajudou a tornar a Inglaterra potência mundial no século XIX, o grande país do norte acredita que a Amazônia pode ampliar sua hegemonia. Eles necessitam do minério da região como os pulmões necessitam de ar. E, para tanto, podem ir além do que fizeram no Chile. Assessor de Allende, o escritor Ariel Dorfman sabe como. Ele é autor de “O longo adeus a Pinochet” (2003), livro inspirado na prisão do ex-ditador chileno, em Londres, em 1998. Exilado por 17 anos, jamais esqueceu as luvas brancas de Pinochet. Perfeitas para quem tem sangue nas mãos.

         O livro impacta. Mistura momentos de jornalismo literário, crônica política e história chilena. A narração é ágil, mas a escrita é ansiosa, como a de alguém que foge ou persegue um fantasma - Pinochet. O escritor viu a ditadura sufocar seus amigos e milhares de chilenos. Ele acompanhou com esperança que o ex-general fosse julgado e condenado por genocídio. Tudo é documentado: repressões, mortes, desaparecimentos, violência de todo tipo, atrocidades de toda espécie. Foram 3.200 pessoas mortas e 40 mil torturadas. Barbárie apocalíptica.

O cenário é repetido em “Missing - O desaparecido” (1982), filme de Costa Grava, com Jack Lemmon e Sissy Spacek. Mostra um Chile incapaz de perceber a própria tragédia. Inicia-se com a procura de um pai, empresário norte-americano, pelo filho desaparecido no país. Uma busca enfrentando demônios que debocham dos exorcistas. Dói estômago, coração, alma. As imagens do Estádio Nacional - centro de torturas e execuções - são tão pestilentas como o inferno de Dante. A presença de comandos militares brasileiros no golpe tornam tudo mais enjoativo. Não há humanidade. Não há misericórdia.

Eu e meu irmão estudamos num “colégio Pinochet”. Fomos para lá porque nos recusávamos a cortar o cabelo. Lá só entrava reco. Fomos vencidos. Um dia ele me contou que o diretor foi à sua sala para apresentar um aluno que ganhou bolsa de estudo do colégio. Era pobre. O diretor mostrou-se orgulhoso. Disse, então: se quisesse ajudar, colocaria um aluno em cada sala. Dias depois, meus pais foram convidados pelo colégio. Uma carta do meu irmão propondo ao diretor que fizesse o que disse a ele era o motivo. Ao invés de elogios, pediam para que meu irmão saísse da instituição. Ditadura é o que queremos? Melhor democracia, sempre.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 13.01.2023

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