A maldição da segunda-feira
Cláudio Pimentel
Um craque da propaganda, notável pela incansável correria, disparou em certa ocasião a seguinte diatribe: “Adoro a segunda-feira”. Fiquei estático. Como era possível? Tentei agora encontrar a crônica em que o desatino estava escrito, mas não achei. Pretendia rever os argumentos do vendedor de sonhos e entender se o tal dia tinha alguma virtude. E, como desgosto da segunda-feira, mantive o plano de dissecá-la e exibi-la como mais um ardil do capitalismo selvagem contra a harmonia dos homens e o charme do ócio. Quem ama a segunda, sofre de ansiedade no bolso. E quem odeia, de ansiedade na alma - que se manifesta ali pelas 15 horas de domingo, quando baixa a síndrome da segunda-feira.
Nos anos 1960, em São Paulo, minha mãe adotou o hábito de levar os filhos ao médico na segunda-feira. Não tenho certeza se era em todas, mas a memória diz que sim. Assumir os doze trabalhos de Hércules ou remover o Pico do Jaraguá pareciam mais fáceis. Primeiro, íamos de ônibus; e, segundo, éramos cinco irmãos. Eu, o mais velho, tinha nove anos e o caçula, um. Minha mãe cuidava dele e eu, dos outros três. Viajávamos espremidos em coletivos lotados e nauseabundos. Sempre havia alguém que, devido aos exageros do domingo, se sentia mal e vomitava, macerando a viagem. Virava um ninho Alien da nave Nostromo. Até hoje tenho suores com a visão e padeço de insônia na véspera da segunda.
Se eu não me engano, o ilustre publicitário alinhava como causa para a aversão à segunda-feira algo como falta de propósito. Todos nós deveríamos ter um propósito na vida, ensinava. Quando se tem um, todo dia é um dia útil. Um dia para fazer e acontecer e não temer ou negligenciar. Concordo, mas não me convenço. É a ladainha do capital. Afinal, conheço pessoas que não gostam do dia do Natal. Para tanto, mais argumentos: o problema não estaria na segunda-feira ou, então, no Natal, mas na vida da pessoa. Algo para psicanálise? A dica implícita é essa: esqueça a segunda-feira e procure um divã. Vá viver a vida, independente do dia, da hora, do minuto. Viva. Mas, no meu caso, se a segunda-feira for um feriado eu não sinto nada. E nem repasso a fobia para a terça-feira. Coisa do mundo e suas lições incompreensíveis.
Não guardo teorias pré-concebidas e nem me apego a mitos, mas certas coincidências me perturbam. Nasci num domingo de Páscoa, a poucos minutos da segunda-feira. Foi um acontecimento na sala de parto. “O último Pascoalino a nascer nesse dia”, disse uma enfermeira. O médico, ao ouvir o dito da assistente, avisou logo: “Quem nasce no domingo de Páscoa tem que se chamar Pascoal ou Pascoalino, senão jamais ficará rico”. Minha mãe se ouviu, esqueceu – ainda bem -, e até hoje continuo pobre, não de “Marré Deci”, mas muito próximo: virei jornalista. A equipe brincava, demonstrando o alívio que sentia. A previsão era de que eu nasceria na madrugada de segunda. Como me antecipei, quebrei o galho deles e, imagino, desprezei a “segundona”, que jogou sua maldição sobre mim.
São mistérios da alma, cuja interpretação vai encontrar o infinito. Coisas sem respostas, sem sentidos, mas que servem para contar aos filhos, aos netos e aos amigos que ainda nos toleram com balelas mil. Independente do que diz o nosso grande propagandista, um Pelé na arte de vender, especialmente a si mesmo, “a felicidade consiste em conhecer seus limites e amá-los”, disse o escritor francês Romain Roland (1866-1944). Na frase, ele lembra que vivemos melhor quando admitimos nossas dificuldades e fraquezas e não quando passamos por cima delas só para dar uma satisfação a si, a outrem ou buscamos nos inserir na moda. Seja lá o que te aflige, sabedoria é suportar o peso do destino. Para mim, bem mais leve que a segunda-feira. Bem mais!
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 06.01.2023
Nenhum comentário:
Postar um comentário