Cassino Royale Brasil
Cláudio Pimentel
Se, em Hollywood, o cinema imita a vida, aqui, no Brasil, a vida imita o cinema. Pelo menos, entre terroristas. A bomba presa no tanque de um caminhão de querosene para avião, nas cercanias do Aeroporto de Brasília, no Natal, foi inspirada em “007 – Cassino Royale” (2006), e revela quão agressiva e fora-da-lei está a cabeça do extremismo de direita no país, depois que as urnas ejetaram Bolsonaro. O artefato falhou: “papai-do-céu” saiu dos seus afazeres e desarmou o detonador, jogando a tragédia no fundo do Paranoá. E não foi com água ungida, mas benta com ervas, mais segura em “descarregos” desse porte.
A explosão do caminhão causaria comoção. É difícil calcular a dimensão, mas nos levaria a desacreditar até da fé, da vida e do amor. E logo em dezembro, quando nos purificamos entre a fraternidade do Natal e a alegria do Ano Novo. Seria trágico dentro de um mês que se mostra intenso e atípico, sugerindo até ser maior que os 31 dias de praxe, graças à quantidade de assuntos e instantes de euforia contidos nele. A “besta-fera” a pôr tudo em risco é George Washington de Oliveira Sousa, ironicamente o nome de um dos heróis da independência norte-americana: George Washington.
O criminoso confessou à Polícia que pretendia melar a posse do presidente Lula, criando, com o caos que a explosão traria, um clima favorável à instalação do Estado de Sítio, mecanismo que suspende por um período temporário a atuação dos Poderes Legislativo e Judiciário. Foi um baita delivery ideológico. Numa caminhonete, transportou, solitariamente, um arsenal de fazer inveja ao presidente Zelensky, da Ucrânia, carente de armas perante a Rússia. Foram mais de dois mil quilômetros do Pará a Brasília, pela BR-156 - num “road movie” sossegado, sossegado. Lembrou-me até um episódio nos anos 1970.
Morávamos num bairro da Baixada Fluminense que vivia outra guerra, pior talvez que a da Ucrânia, pois não sabíamos quem era o inimigo e nem tínhamos a Otan a nos defender. Os moradores é que se viravam. O local tinha bares, armazéns e padarias que eram alvos preferidos dos assaltantes. Quando ocorria, imediatamente formava-se um grupo para ir à caça dos ladrões. A formação era chamada de “mineira”, gíria para polícia paralela. O comandante era sempre a mesma pessoa: um policial militar reformado por acidente. Perdera a perna num confronto com marginais.
Parecia filme faroeste a preparação do grupo: o papel dos integrantes; armas; algemas; carros; roupas; mapas. O ex-PM fazia os contatos com a polícia e pedia licença para adentrar no “mundo-cão”. A partir daí viravam fantasmas com a certeza de que não seriam importunados. Washington atravessou o país na mesma situação. Será que pediu licença? Afinal, transportar armas no valor de R$ 160 mil a descoberto é um risco. Eram duas escopetas calibre 12, dois revólveres calibres ponto 357, três pistolas, sendo duas Glocks e uma CZ Shadow, um fuzil Springfield calibre ponto 308, mais de mil munições de diversos calibres e cinco bananas de dinamite. Traficante ou contrabandista só se arriscariam se houvesse cobertura.
Viver a Democracia não é fácil. Protegê-la, muito menos ainda. O Brasil, ao contrário dos EUA, teve poucos períodos de Democracia. O maior deles foi agora, logo após a ditadura de 1964. Por isso, talvez, esses rompantes golpistas. Os EUA, entretanto, são um país que exerce a democracia desde a Independência, em 4 de julho de 1776. São poderosos graças a ela. Entre nós, é diferente. Temos um passado conservador e autoritário, que se agrava com a herança agrária, extrativista e comercial. Fomos colônia de exploração e não de colonização como os americanos. Tanto que o capitalismo moderno ainda se mantém distante. Somos mais bandeirantes do que astronautas. A ideia de uma direita como a dos EUA em nosso país, porém, é péssima. Ela se confunde com banditismo. Temos um perfil republicano de viés francês, humanístico. “Washingtons” sempre existirão em ambientes quase medievais, como o nosso. Cabe às autoridades monitorá-los. Até porque não têm, como Bond, licença para matar. E o caminho do mal-aventurado que rasga a Constituição é a cadeia. Está na lei.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 30.12.2022
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