Santa ignorância, amém!
Cláudio Pimentel
É possível listar guerras, tragédias e acidentes como fatos ocorridos por ignorância, ou seja, falta de conhecimento. Por que o bebê enfia o dedo na tomada? Fácil, não é? E a tragédia de Brumadinho, de uma empresa especializada em mineração? Má-fé? Millor tem uma historinha exemplar, a qual classifica de a superioridade da ignorância: O avião bateu feio no chão; chegou a quicar no ar, inclinando-se à direita e depois à esquerda. Uma manobra desesperada deu-lhe uma volta de 180 graus e, já com a amurada à vista, freou subitamente. O trem de aterrissagem partiu-se; o motor da esquerda pegou fogo; a asa do outro lado pendeu quebrada, se incendiando também. O pajé, que voava pela primeira vez, achou tudo normal e divertido, estranhando a reação dos outros passageiros. Mais tarde, quando lhe explicaram como o avião pousa, começou a tremer-se.
Há quem tenha dito que, se não fosse a ignorância, o dicionário jamais existiria. Exagero à parte, o pai-dos-burros explica que ignorância é a condição de quem não é instruído; falta de saber; ausência de conhecimento. No verbete “ignorante”, repete a dose: pessoa que ignora; que não sabe nada. Porém, no verbete “ignorantão” nos apresenta uma descrição mais precisa do que vemos hoje nas mais diversas áreas: “Diz-se do indivíduo muito ignorante, mas pretensioso”. Ou seja: que não sabe, mas acredita que sabe. Alguém como o pajé do avião, na superioridade da ignorância. Por maior a besteira que diga, é, para ele, sabedoria em estado puro. A diferença é que mesmo “que aprenda como o avião pousa”, a pretensão o impedirá de tremer. Não vai mudar.
O cineasta Orson Welles (1915 – 1985), diretor de “Cidadão Kane” (1941), referiu-se à ignorância assim: “Muitas pessoas são educadas demais para falar com a boca cheia, mas não se preocupam em fazê-lo com a cabeça vazia”. O jornalista e escritor Ambrose Bierce (1842 – 1914) é daquelas pessoas que já nasceram com passagem e visto de entrada para o Inferno. Em o “Dicionário do Diabo”, livro com sátiras e frases irônicas publicadas nos jornais por onde passou, ele surpreende pela atualidade. Parece hoje. Patriotismo, militarismo, clericalismo, demagogia democrática são cacoetes que não escapam à sua verve. Diz ele no verbete “ignorante”: “Uma pessoa que desconhece certas coisas que nos são familiares, conhecendo outras coisas das quais nunca ouvimos falar”. Encaixa-se como luva nos atuais políticos, empresários, esportistas, artistas e parentes. A ignorância não é propriedade exclusiva de pessoas que não tiveram acesso à educação.
Dia desses, cai na besteira de explicar liberdade de expressão a um direitista, que chegou do nada e carimbou: “Eu defendo a liberdade de expressão”. Para não parecer insensível, disse: “Eu te ajudo. A liberdade de expressão é um valor universal”. Foi meu erro. Era uma “pegadinha”, instrução que circula nas “bolhas” que frequentam nas redes sociais. “Então por que não posso xingar um ministro do STF?”, atirou. Mantive a calma e segui: “Porque a liberdade de expressão termina no momento em que o respeito na troca de ideias é substituído por ataques pessoais”. Ouvi: “Então, não posso chamar um ministro de careca? Isso é tirar minha liberdade de expressão”. Caí fora dizendo: “Não vejo assim. Xingar não é civilizado. É juízo de valor. Deve prevalecer a troca de ideias”, e permaneci em silêncio, deixando-o como um caranguejo: debatendo-se.
A estratégia de fugir do debate de ideias para desferir ataques pessoais a adversários foi criada pelo Partido Republicano norte-americano. O mentor foi o marqueteiro Roger Stone, que há anos lidera as campanhas presidenciais republicanas. Suas táticas inundaram o Brasil nas duas últimas disputas nacionais. Um documentário, “Get me Roger Stone” (2017), sobre ele e sua forma de agir, está disponível na Netflix, mostrando os bastidores das campanhas de Nixon, Bush Jr. e Trump. Stone é considerado um marqueteiro do mal, que faz questão de se aproveitar da ignorância para propor ações sórdidas. Difamar e tornar adversários em inimigos são suas marcas. Coisas fáceis de conseguir no entender do escritor espanhol Baltasar Gracián (1601 – 1658), um jesuíta autor do livreto “A arte da Prudência”: “O primeiro passo da ignorância é presumir saber”.
Cláudio Pimentel é jornalista
Tribuna da Bahia – 16.12.2022
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