sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

crônicas

Um lugar de amor

Cláudio Pimentel

         Sem repetição, a vida não é a mesma coisa - mesmo considerando a infinitude da engenhosidade humana, em meio aos calços, percalços e encalços que o destino põe no caminho. O Natal chegou novamente. Radioso como sempre. Enigmático como nunca. É um lugar de amor. Eles estão por aí, às lufadas. Só os reconhecemos quando aconchegados dentro de nós. A livraria é um lugar de amor para mim. É onde tenho a impressão de que nada de mal pode me acontecer. O conhecimento que há nos livros nos liberta. Ouvir Bach também. Seja onde estiver, me conduz a um lugar de amor. Seus acordes pacificam coração e mente e afastam os medos terrenos.

         Os lugares de amor podem ser físicos ou metafísicos. Para eles, nada é preciso, perfeito ou genuíno. É tudo sentido, encanto e inspiração. São anárquicos, o que levanta a questão: de onde vem o amor? Ao término de nossa primeira grande viagem, a do nascer, temos nossa primeira vivência com o amor: incondicional... pleno... Todas as nossas necessidades são servidas emocional, espiritual e fisicamente. Ganhamos suprimento contínuo de proteção. Devoção total. Não há consciência, apenas sensação. Ficamos viciados. Egoísmo, egocentrismo e narcisismo nos dopam. Carregamos essa dependência até termos consciência deles, seus males e riscos, e reagir, combatendo seus efeitos colaterais: um desmesurado amor-próprio e a crença de que os outros existem para nos servir. Há quem não consiga.

Imperceptíveis, mal e bem caminham juntos nessa formação. Um tentando superar o outro. O amor, então, gera, de um lado, aqueles que colocam o “eu” em primeiro lugar – os desatentos - e, de outro, os que buscam sua humanidade por meio do refinamento civilizatório – os atentos. O convívio entra em alerta: é o conflito no cardápio. Diariamente nos batemos com representantes de ambos perfis, que variam de intensidade. Já inserido no cotidiano, os conflitos, de tempos em tempos, tornam-se amenos ou ríspidos. Nas duas primeiras décadas desse milênio, a rispidez nas relações se impôs, esgarçando o tecido social e solapando núcleos familiares. Ninguém se entende. Não há mais negociações. Apenas imposições. É a lei do mais forte. Egoísmo, egocentrismo e narcisismo venceram.

O caos nas relações, reforçadas com o advento das redes sociais, quebrou paradigmas e um novo modo de convívio se estabeleceu. O culto ao ódio e a ação fraterna se antagonizam. Enquanto os primeiros se digladiam, milhares de pessoas se mobilizaram para combater o que é urgente e real no país: a fome. Os jornais mostram os mutirões para levar alimentos a quem não tem. É o maior movimento dos últimos anos. Padre Júlio Lancellotti inspirou legiões. É um Don Quixote lutando até contra a cretinice de se impedir que os sem-teto durmam embaixo de marquises e pontes nas cidades. O ódio não tem limites. A situação do país é tão crítica que as igrejas e templos estão lotados. Se soluções terrenas viram miragem, por que não acreditar nas soluções místicas? Talvez virem realidade. A fé resiste.

 O voluntarismo cresceu. Conheço uma pessoa que decidiu fazer um inusitado trabalho: visitar asilos para cortar cabelos e fazer a barba dos internos. É um banho de autoestima. Duas vezes no mês, ela se dirige às instituições para cuidar de algo que dignifica: a aparência. É o seu lugar de amor. Conheço outra que reúne meninos e meninas de uma comunidade para ensinar a ler e escrever poesias. Mais poético, impossível. Qualquer um tem seu lugar de amor. E nós, a população, sem egoísmos e narcisismos, temos a missão de nos salvar. Não dá para esperar alguém, um herói. Verdade seja dita, o Natal é o que é porque ele acontece em nosso lar. Onde nos sentimos seguros ao lado daqueles que amamos. Nossa casa é um lugar de amor, de muito amor, apesar do poeta. Diz Carlos Drummond de Andrade: “Nossa capacidade de amar é limitada, e o amor, infinito; este é o drama”. Feliz Natal!

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 23.12.2022

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