A crônica é do Brasil
Cláudio Pimentel
A crônica é um produto genuinamente nacional - como o samba. Há mais de 150 anos vem encantando leitores e inspirando-os a conhecer o sentido de origem, nação e pátria. Longe daqueles que fazem vigília em quartéis pedindo, com cueiros na cabeça, golpe, mas perto de Lima Barreto, pioneiro desse espirituoso modo de escrever, cujo patriotismo serviu para defender o fim das desigualdades, já no século XIX. O patriota Policarpo Quaresma, seu inflamado alter ego, deixou cicatrizes na alma brasileira. Exemplo de combate, Barreto é o início da história da crônica, cuja bandeira também passou por Machado de Assis, José de Alencar, Olavo Bilac. Eles a forjaram com a leveza de mãos ora poéticas, ora proféticas e ora divertidas, furiosas, impetuosas, amenas. Se a língua portuguesa nos colocou no mesmo barco, a crônica nos uniu.
É na relação com a imprensa que a crônica nasce e se consolida. Os primeiros autores recebiam a missão de escrever um relato dos fatos da semana. E caprichavam. Fizeram escola. Foi essa a isca que me levou aos cronistas de todos os tempos. Eu, recém chegado ao Rio - outro país se comparado, nos anos 1970, a São Paulo -, fui enfeitiçado por elas, publicadas aos borbotões. As histórias da cidade maravilhosa e seus satélites, Zona Sul, Subúrbio, Praias, Baixada Fluminense, e os personagens que os habitavam, me seduziram. Perdia-me com Carlos Drummond de Andrade, Carlos Eduardo Novais, Leon Eliachar, Millor Fernandes, João Saldanha e o “diferentão” Carlinhos Oliveira. Capixaba, falava de um Rio de Janeiro completamente diferente dos outros: barra pesada, ameaçador e engraçado. Mais parecido com o que a gente via, sentia e experimentava nas ruas e nas ensanguentadas páginas de “O Dia”.
Mirrado, barbudo, calvo e escondido atrás de enormes óculos, Carlinhos vivia apaixonado por algo ou alguém. Ou sob a ameaça das vicissitudes da noite carioca. Misturava sua vida com a vida que tirava da cidade, suas muitas mazelas e a pouca abundância, retraída como a felicidade. Era personagem e espectador, autor e ator, mágico e palhaço, usando a mesma dimensão, o mesmo instante, em vários ambientes. Um extraterrestre. Não sei se o episódio “A galinha tite” é de uma crônica ou de alguma entrevista que deu – às quais dava em profusão. Todos queriam sua opinião. Em 1953, ele dividia um quarto com Ferreira Gullar numa pensão, no Catete. Ambos faziam as refeições no local ou no Calabouço - Restaurante dos Estudantes. Aos domingos, porém, ambos fechavam e a dupla precisava rangar.
A solução passou a ser o restaurante do chinês “Shio”, na Rua do Riachuelo, Lapa, bairro malandro, no centro da capital federal. Adoravam “o arroz com galinha tite”. Comiam de lamber os beiços. Apenas uma coisa os deixava intrigados: o “tite”. Seria um tempero da culinária chinesa? Resolveram saber: “Por que “galinha tite?”. Chinês: “Vou mercado da ‘Plaça’ XV e lá tem num canto galinha tite... ‘Complo’ mais ‘balato’, né?” Triste porque doentes. Ninguém comprava essas galinhas. Só o chinês. Quem não viveu algo parecido? A crônica se apropria dessas histórias e nos apresenta pequenas obras-primas de emoção baseadas nos espantos e alegrias, decepções e surpresas do cotidiano.
Otto Lara Resende, Fernando Sabino, Manuel Bandeira, Rubem Braga, João Ubaldo e mais uma constelação de escritores consagraram a crônica, esmiuçando os temas mais recorrentes ao gênero: humor, mulher, cidades, costumes, relações amorosas, futebol, andarilhos... Outro capixaba, Rubem Braga, também se diferenciava. Transformava o metafísico em monumentos sentimentais. Um Proust de fôlego curto, mas de profundidade similar. Luís Fernando Veríssimo foi quem mais me encantou. Em “Homem que é homem”, supera-se. Diz: “Homem que é homem – chamado HQEH - não mostra sua bunda para ninguém e nem permite que olhem para a bunda de sua mulher.” E vai: “HQEH só assiste filme de Zeffirelli se a mulher insistir muito. Prefere Clint Eastwood”. Lá pelas tantas desafia: “Se você não sabe se tem um HQEH dentro de você, faça o teste”. Enumera três situações, alertando para o seguinte: “Estude-as, pense e decida como reagiria. Se pensar muito, não precisa nem responder. Você não é. HQEH não pensa”. Mais sutil, impossível.
Cláudio Pimentel é jornalista.
Tribuna da Bahia – 09.12.2022
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