sexta-feira, 18 de novembro de 2022

crônicas

Obrigado por fumar

Cláudio Pimentel

Ao comparar o mundo e seus atuais oito bilhões de moradores a um cigarro queimando nas duas pontas, me dei conta que, agora, em novembro, faz 25 anos que parei de fumar. Uma vida. Não sei dizer se melhorou ou piorou algo em mim. O paladar ficou aguçado. O olfato também. Mas tornei-me um chato: o aroma ácido ao redor tortura. Não foi fácil deixar o cigarro. E talvez, por isso, a implicância. Só entende quem já deixou. Parar de fumar não é separação amigável. É litigiosa. Fadada a recaídas apaixonadas. Até me desfazer dele definitivamente já tinha havido três separações. É expulsar um companheiro de dentro de si sem extirpar a raiz. Abandonar um “ser” que presta solidariedade na tristeza e na alegria. É matar parte do seu eu. O cigarro conversa com a alma.

Experimentei um cigarro antes do primeiro beijo. Tinha uns 12 anos. Era o início de uma jornada de rebeldias, aqueles pequenos ritos de passagem da infância à adolescência. Colegas da escola me deram um “mata-rato”, chamado Globo, para experimentar. Acendi e fumei alguns até sentir a chama do primeiro beijo. Ele aconteceu durante uma Feira da Bahia, no Anhembi, em São Paulo, ao ritmo do Trio de Dodô e Osmar. Rosângela era o nome do pecado. Enquanto o cigarro deixava a boca desconfortável, o beijo deixava todo o corpo confortável. Era pura magia. Só voltei a pensar em cigarros na época do pré-vestibular, quando todos os ritos necessários já tinham sido cumpridos. Ele voltou como um parceiro para toda hora.

Se há uma profissão nitidamente formada por fumantes, esta é a de jornalista. Na segunda metade dos anos 1980, não era raro perceber o resultado disso observando, por volta das 20h, o teto da redação, por exemplo, da Tribuna da Bahia. Os profissionais caminhavam como se estivessem com as cabeças nas nuvens... da fumaça dos cigarros, tragados frenética e intensamente quando anoitecia. Trabalhávamos dentro de um cinzeiro. A Tribuna, então, decidiu construir um fumódromo. Foi pioneira. A redação passou a funcionar como a cabine de um avião - uma área de fumante, ao fundo, e outra de não fumante, à frente, logo após à entrada.

Lembro-me, nessa época, da pressão que havia contra a venda e consumo de cigarros. Os religiosos entendiam que os jovens se desviavam do caminho da virtude e colocavam a saúde em risco, mesmo não apresentando provas científicas do mal que o cigarro causaria. Mas o que realmente os incomodava era a transgressão dos costumes. O cinema norte-americano foi financiado em grande parte pelas empresas de cigarros. Hollywood sempre contou com elas. E também com as empresas de bebidas, de automóveis e até a máfia, que vendia os dois em seus cassinos e casas noturnas. Um jovem que não sabia, por timidez, o que fazer com as mãos numa festa, aprendia rapidinho a dar sentido a elas vendo James Dean ou Marlon Brando segurando um cigarro ou um copo de uísque num filme. Quantas jovens passaram a fumar inspiradas nas caras, bocas e olhares mortíferos de Lauren Bacall tragando um cigarro? O cigarro vendia rebeldia, liberdade, atitude.

A comunidade científica, porém, finalmente bateu o martelo em torno do assunto: cigarro mata. Os governos, então, fizeram as contas e perceberam que estavam gastando mais com tratamento de fumantes do que arrecadando em impostos do tabaco. O cigarro caiu em desgraça. Hoje os maços trazem imagens de fumantes doentes e informações assustadoras sobre doenças. Intimidou gente, mas continua vendendo. Quando eu fumava, o que me chamava a atenção era a criatividade no design dos maços. Alguns eram pequenas obras primas. Com os terríveis alertas, tornaram-se mais bonitos ainda. Agora, se você ainda é fumante, há um filme imperdível: “Obrigado por fumar” (2005), dirigido por Jason Reitman e estrelado por Aaron Eckhart, que faz o porta-voz de uma empresa de cigarros. É um show de ironia e cinismo. Um estímulo para deixar esse prazer.

Cláudio Pimentel é jornalista

Tribuna da Bahia – 18.11.2022

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